
[interior. sala feia. eucatex. luz fria. tarde modorrenta]
— …fica a questão dos porquês de tal fenômeno… O quanto a abelha rainha conhece da própria colméia?
— Ela é a colméia. Não há diferença. Nós é que tendemos a pensar em individualidade e não em holismo. Também porque holística virou papo-chato-de-hippie-sujo…
— Concordo. Acho uma pena o geral ser visto "one ass a hole"; a necessidade de contraste inferiorizante para se ganhar "destaque", etecétera… Mas esse é o mundo, né? Voltando às abelhas, se a rainha é a colméia e todas as outras abandonam essa unidade de ambas, e seguindo a sua análise holística, será que o fenômeno se dá pela falta de identificação de todas as outras com a rainha-colméia?
— Não. Homeostase. A rainha é igual a qualquer abelha, só a função é diferenciada. Quando um organismo identifica um órgão defeituoso, ele desliga o órgão. No caso da colméia, a vantagem é poder simplesmente "abandonar o corpo".
— Homeostase sim! Mas aí entraremos nas velhas questões do ser, não? Como cada ser passa a identificar a si mesmo, o que é, o que o forma.
Phisis x
Functionis. Lembra do Magritte, do Duchamp? A abelha é abelha por seu organismo ou por sua função? Vai saber, podemos ir ao infinito e não chegar à nenhuma resposta.
— A abelha é abelha por não ser urso, mano. Eu me defino na alteridade… Além do quê, isso tudo de diferenciação funciona só quando a gente quer. Volição. O discurso muda conforme a necessidade. No final, existe apenas a vontade. E querer é o início do sofrimento. Paixão, paixão. Mas eu não sou assim tão zen. O amor me impede o zen…
— Meu velho, compartilho contigo da mesma visão. Nos desviamos do assunto e a interrogação das abelhas continua, mas não vamos levar mais adiante, que é mais zen.
— Nem tanto. A abelha rainha conhece a colméia porque faz parte dela. Não havendo, como no nosso caso, a percepção de vida independente, ela é a colméia e, portanto, terá tanto conhecimento quanto seja possível um sistema se conhecer. Apesar da pergunta inicial ser essa, não era isso o que você se perguntava, e portanto o assunto mudou. Foco, gafanhoto…
— Rumo ao infinito! Na verdade, a questão inicial era: "por que as outras abelhas abandonam sua colmeia com sua rainha?" Levantei a questão se uma possível causa não seria a falta de compreensão. Segundo sua resposta, não. O enigma continua em aberto… E a resposta desnecessária. Obrigado Master Po!
— As abelhas abandonam a colméia pelo mesmo motivo que a galinha atravessa a rua. É koan. Encontrando o buddha, mate o buddha.