20080803

Encontro inesperado no corredor

corredor
Já não lhe falava havia anos. Um tempo suficiente para aquietar birras, mas não mágoas. Aquele encontro, fortuito, não era bem-vindo — deixava-os constrangidos, quebrava a couraça de insensibilidade que houvera por bem construir durante essa ausência e destruía a sua já combalida ilusão de controle.
Supunha ser o mesmo com ele. Pela cara que fazia. Pela pergunta despropositada:
— Como anda o gato?
— Morreu.
Não queria conversar. Não queria dar a ele a chance de se aproveitar da falta que se faziam, tão patente na respiração de um, nas mãos trêmulas de outro, nos olhos frenéticos a buscar salvação de ambos.
Havia algo que não morria e que, possivelmente, nunca enfraqueceria, não importando anos, quilômetros, mortes, guerras, cataclismas. Havia algo maior que determinações. Mas não podia esmorecer agora, não podia ceder um passo, um olhar, ainda que não mais acreditasse nos motivos da separação.
Havia de ser forte, mesmo sem saber direito por quê, mesmo parecendo tudo aquilo sandices.
Cinco minutos de silência duro e áspero naquele corredor, como que à espera da execução — e aborrecia-se com seus chavões; e buscava mais um: à espera de um milagre. Cinco minutos até que ele fizesse a segunda intervenção ao silêncio que era, enfim, melhor que ter de responder-lhe:
— Dá um abraço no papai.
Hesitou e não respondeu. A mesma resposta teria de dar, pai, gato, fim.

20080712

Poema de aniversário

Só para constar.
E ando feliz, e ando onde há espaço, como sempre foi.
Fui.
Rosário Castellanos.
Aurguri.


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Destino

Matamos lo que amamos. Lo demás
no ha estado vivo nunca.
Ninguno está tan cerca. A ningún otro hiere
un olvido, una ausencia, a veces menos.
Matamos lo que amamos. ¡Que cese esta asfixia
de respirar con un pulmón ajeno!
El aire no es bastante
para los dos. Y no basta la tierra
para los cuerpos juntos
y la ración de la esperanza es poca
y el dolor no se puede compartir.

El hombre es anima de soledades,
ciervo con una flecha en el ijar
que huye y se desangra.

Ah, pero el odio, su fijeza insomne
de pupilas de vidrio; su actitud
que es a la vez reposo y amenaza.

El ciervo va a beber y en el agua aparece
el reflejo del tigre.

El ciervo bebe el agua y la imagen. Se vuelve
-antes que lo devoren- (cómplice, fascinado)
igual a su enemigo.

Damos la vida sólo a lo que odiamos

20080612

Fotos do retrovisor

foto
Apareciam, as fotos, nos espelhos por onde passava. Não se via nos espelhos, via as fotos.
Pedaços da vida, que não se lembrava registrados.
Registrava, destarte, pedaços de tempos, frações de segundo, nesgas de dias incompletos.
Perdia as cores a cada vez que clicava; perdia o foco, fazia força e desistia perante a impavidez heisenberguiana dos fatos: mudava a cada vez que observava

passado

presente

pedaço.

20080422

SMSeando microcontos, 7 (definitivo)

"Meio morto, meio livre, meio lúdico, meio incerto; não cabia em si de metades."

Meio apaixonado?

Chuac.

20080418

SMSeando microcontos 6

"Meio morto, meio livre, meio lúdico, meio incerto; não cabia em si de metades."

A cada passo, o mundo atras de si desmoronava. E nao e que aprendeu a achar graca nisso tambem?

SMSeando microcontos 5

"Meio morto, meio livre, meio lúdico, meio incerto; não cabia em si de metades."

Meio puta, meio faminta, meio sedenta e no meio da Santo Amaro; nao caibo mais em Sao Paulo.

Lembre-se de dar a cidade apenas o que ela merece.

SMSeando microcontos 4

"Meio morto, meio livre, meio lúdico, meio incerto; não cabia em si de metades."

Que saudade louca de vc, Giallo. Nao meia. Inteira.

Libemos, meio de cumplicidade, meio de amizade.

SMSeando microcontos 3

"Meio morto, meio livre, meio lúdico, meio incerto; não cabia em si de metades."

Tem metade saudade? Eu tenho saudade e quero ver o Cangaro Giallo!

Vou juntar metades e fazer uma festa. Admito ser relapso.

SMSeando microcontos 2

"Meio morto, meio livre, meio lúdico, meio incerto; não cabia em si de metades."

Hahahaha... Ha qto tempo hahaha

Meio que de volta

Assim q eh bom!!!

SMSeando microcontos 1

"Meio morto, meio livre, meio lúdico, meio incerto; não cabia em si de metades."

Cortou-se ao meio so para entender de metades. Para seu espanto, lagartixou-se.

20080416

microconto, microfoto #27

segunda
Faz-se caixa, faz-se mágica, ao sabor do vento, a saber o sono. Fogo e surpresa.

20080415

microconto, microfoto #26

segunda
Amaldiçoavam cada grau a mais de calor, amonstradas, as pobres corujas.

20080411

microconto, microfoto #25

segunda
Legou aos mares sua impaciência enquanto a vida soçobrava. Flibusteiro, desde sempre.

20080410

microconto, microfoto #24

segunda
Sabia a tomates e recendia a inverno. Hier. Hiver. Além.

20080409

microconto, microfoto #23

segunda
Ria-se da confusão da filha não-nascida. O escuro, enfim, era mesmo seu.

20080408

microconto, microfoto #22

segunda
Vendeu as esperanças barato, sabendo que estava sendo roubada. A liberdade que sobreveio foi indescritível.

20080407

microconto, microfoto #21

segunda
Sarigüé, mandicância, ímã. Comia diacríticos. À saciedade.

20080404

microconto, microfoto #20

segunda
Setenta dias, não mais que isso. Todas as cores do mundo. E um pato de borracha.

20080402

microconto, microfoto #19

segunda
Ainda assim, contra toda lógica, era mesmo difícil desistir de não desistir.

20080401

microconto, microfoto #18

segunda
Bastava estar alhures. Nenhures, quiçá.