20080803

Encontro inesperado no corredor

corredor
Já não lhe falava havia anos. Um tempo suficiente para aquietar birras, mas não mágoas. Aquele encontro, fortuito, não era bem-vindo — deixava-os constrangidos, quebrava a couraça de insensibilidade que houvera por bem construir durante essa ausência e destruía a sua já combalida ilusão de controle.
Supunha ser o mesmo com ele. Pela cara que fazia. Pela pergunta despropositada:
— Como anda o gato?
— Morreu.
Não queria conversar. Não queria dar a ele a chance de se aproveitar da falta que se faziam, tão patente na respiração de um, nas mãos trêmulas de outro, nos olhos frenéticos a buscar salvação de ambos.
Havia algo que não morria e que, possivelmente, nunca enfraqueceria, não importando anos, quilômetros, mortes, guerras, cataclismas. Havia algo maior que determinações. Mas não podia esmorecer agora, não podia ceder um passo, um olhar, ainda que não mais acreditasse nos motivos da separação.
Havia de ser forte, mesmo sem saber direito por quê, mesmo parecendo tudo aquilo sandices.
Cinco minutos de silência duro e áspero naquele corredor, como que à espera da execução — e aborrecia-se com seus chavões; e buscava mais um: à espera de um milagre. Cinco minutos até que ele fizesse a segunda intervenção ao silêncio que era, enfim, melhor que ter de responder-lhe:
— Dá um abraço no papai.
Hesitou e não respondeu. A mesma resposta teria de dar, pai, gato, fim.

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