20070118

Closure

Closure
Essas coisas acontecem nas melhores famiglias. Sujeito tem seus cinco minutos e resolve dar cabo das coisas por um monte de motivos filosóficos-toilléticos, mas eu creio mesmo que seja porque as coisas não podem revidar, em suas formas de coisas, inanimadas, é sua tragédia, não a minha.
Superdéspota, ativar!
Aí resolve que acaba com o blog, de novo, para criar outro — de novo. Nada muito diferente, mas mudou tanta coisa na vida do moço, deixa ele mudar mais um pouquinho. É fase. Daqui a pouco cansa.
Conto da cirurgia lá. Conto mais lá. Deixo para aborrecer a todos com papos chatos, lá também. Aqui, deu. A série de textelhos com fotelhas continua; lá.
Lá é aqui.
À bientôt.

Acordando

Ainda sob efeitos de drogas ministradas por especialistas em cardiopatias importantes.
Tome link besta. Depois eu escrevo.

Ah, é, estou vivo, acho que deu para perceber.

Mu para vocês.

20070107

Recesso

Recesso
Então é arrivederci, bambini. O amarelo se interna hoje, dia 7 e é operado amanhã. Acredito que volto a usar o computador dia 25, no aniversário de São Paulo, respondendo aos e-mails e contando como foi.
Até lá, cuidem-se. Se eu morrer, o testamento está no movelzinho de CDs, ao lado do meu computador, num bloquinho da Coca-Cola, que é para ficar o gosto de coisa kitsch, coisa séria que não se leva a sério. Afinal, se eu não morrer, ele não vai estar lá, e essa é minha mágica.
É o único jeito, afinal.
No mais, tenho bergères. Tenho possibilidades. Tenho um desprezo tamanho por tudo o que não me faz bem. Tenho sorrisos que colecionei durante essas três últimas semanas.

'S wonderful
'S marvelous
That you should care for me.


Fácil assim.

Até mais. E, é sempre bom lembrar: a vida é muito curta para café ruim.

20070106

Mil

Mil
Convenções, não é? Superstições, números mágicos, significações de aluguel. O I Ching diz "Wei Chi", o último hexagrama. O tarot me mostrou Il Matto. O Blogger me diz que este é o milésimo post aqui. In Coltrane we trust porque, de verdade, não acreditamos em nada.
As coincidências, ou sincronicidades, se acumulam. O post sobre hoje, a compra do Wenders. Os cogumelos de Mme. Spin e a estupefaciência pela troca de idéias. O e-mail na hora certa, na hora do fim, na hora do começo e recomeço e não faço mais sentido.
O saldo do ano? Perdi o pai, perdi a ingenuidade, perdi a mulher, perdi a compostura, perdi a frescura, perdi alguns anos, perdi a esperança, perdi a dramaticidade, perdi as desculpas.
Ganhei o tempo.
Ganhei meus amigos já agora um pouco mais que amigos. Ganhei olhares de descrença e de admiração. Ganhei perspectivas.

Engraçado que tudo o que tem acontecido parece com aquelas preparações, aqueles truques de narrativa para dizer que essa personagem secundária vai morrer. Eu, que sempre abominei chavões, tenho a chance de provar que minha vida não é um clichê.
=P

Aliás, lembra da vida que eu disse que era nova, que estava chegando? Aquela que não se parecia com a foto em cima do balcão? Chegou. E, vejam, pode durar só até segunda, mas já valeu. É, carissimi amici, eu estou tranqüilo até para morrer na mesa de operações.

Sim, é possível.

Sim, é agora.

Carol me definiu como o menino que domou o tempo. Nem tanto. Eu apenas consigo enxergar o tempo. Finalmente.

20070105

Droga

Droga
Preciso ver você mais vezes, Cangaro Giallo. Você dá barato.
Mas só quando você precisa, entenda. E considere-se avisada: não existem níveis seguros para o consumo dessa substância.

20070104

Dudinka

Dudinka
Quando você perde algumas coisas, fica difícil voltar a ser o que era.
Quando você percebe que não precisa mais de nada, que não quer efetivamente mais nada, que nada mais é assim tão importante, fica difícil manter a angústia.
A angústia, nesses casos, é eliminada na urina.
E, perceba, você tem tomado diuréticos.
Dudinka. Talvez essa seja a única coisa da qual você não abriu mão. Afinal, a Dudinka deve ser conquistada, sempre. Dudinka or die. Todo o mais é hipocrisia.
É assim fácil. Eu não preciso do CD do Zebda. Eu não preciso comer camarão. Eu não preciso beijar você. Eu não preciso desse apartamento. Eu não preciso de mais cinqüenta anos de vida. Eu não preciso, e eu deixei de querer.
Longe da apatia, esse desapego deixa o sujeito numa posição extremamente confortável, tranqüila e solitária. E livre. E contemplativa.
Sim, sofrem os textos, sofre a música, mas é porque não careço mais de output. Talvez isso tenha me levado mais para o lado da fotografia: quando tudo perde a importância, a não ser aquela que emprestamos, tudo é novo. E exige, o novo, um novo olhar.
Então redescubro a Dudinka.
Todo dia.
Por isso me vês sorrir mais e com esse olhar perdido de apaixonado. Nada mais longe da verdade: o estado é de ausência de paixão. É o custo. Por isso me ouves dizer que amo, porque é o último resquício de humanidade nessa carcaça amarela, o meu paradoxo definitivo. O amor me impede o zen. Eu não te havia dito que amor é koan?
Pois.
E ainda vêm o amigo dizer que Dudinka é nome de coelhinha da Playboy. Deu-me até a edição para que eu vá comprar no sebo. Acho que não. Prefiro ver a Dudinka pessoalmente. Ou, como disse Pessoa, e parafraseio, que me pode dar a Dudinka que minha alma me não tenha já dado? E, se minha alma mo não pode dar, como mo dará a Dudinka, se é com a alma que verei a Dudinka, se a vir?

Dudinka, Fez, Londres, Berlim, Cracóvia, Praga. Falta pouco. Un átimo così.

20070103

Desafiado

Desafiado
Você não quis acreditar. Mas escutou até o fim. O que é bem mais do que se pode pedir nos dias de hoje. A multiplicação de inteligências solúveis, paralelos do café solúvel — peculiaridade do mundo pós-Google da qual já tratamos —, me dá asco. Mas você me deu dúvidas, para as quais eu tinha resposta, ainda que você não tenha ficado satisfeita. Ponto para você. Sua incredulidade te fez mais querida. Afinal, eu sempre disse que não tenho certeza de nada.
E você me colocou em cheque por diversas vezes. Algumas por causa da sua ingenuidade de ver o rei nu (mas o rei sabia-se nu, e isso não foi problema) ou de dizer um disparate que gerava toda uma possibilidade paralela — e era bem divertido fazer essas realidades ganharem corpo e testar a verossimilhança de cada uma delas. Horas…
Outras vezes, por causa da minha ingenuidade. E aí doía e eu fazia caras e bocas e baixava a cabeça e me perguntava os porquês. Por isso a Tia ainda recebe minhas visitas. Por isso eu ainda não me dei alta. Também por isso nossas conversas ainda duram para sempre. E por isso eu te chamei para mais um café antes da cirurgia.
Café, entenda. Café solúvel nunca foi, nem nunca será, café.

Ainda inventam o amor solúvel. E eu continuarei trocando por uma paçoca.

20070102

Countdown

Countdown
Deixar aos doutos a explicação disso tudo, que já não queremos mais saber. E torcer para que os sensíveis tenham idéia dos porquês, considerando que não mais percebemos as coisas com o miocárdio.
Afinal, tunamos o coração em cinco dias — contagem regressiva não para a cirurgia, que esta nos parece sem problemas, mas para o tédio que sobrevirá, certo como a cicatriz, e perdurará meses. Um mês de casa, dois sem sexo, seis sem álcool, sabe-se lá quantos sem natação ou corrida ou yoga — porque o handebol mesmo já me foi peremptoriamente proibido por todos os séculos vindouros. O handebol, o cigarro e as tatuagens. Seculorum, amen.
E eu só consigo pensar nisso: nas proibições e na dieta hipossódica e nos remédios que serão companhia eterna (lembrar de levar na viagem, colocar na mochila, porque quem sabe onde o amarelo vai passar a noite hoje). E pensar se o "ispessalista" vai acertar bem o meio da tattoo, na parte incólume, para não estragar o trabalho do Marcão, que, convenhamos, ficou bonito, não é porque sou eu, não.
Countdown.
Dia oito de janeiro.
Ao menos eu tenho um sofá.

20070101

Primeiro

Primeiro
Pegamos a convenção e dela fizemos um peixe.
Tomamos a amizade e dela fizemos juras.
Questionamos fotos. Ouvimos fogos. Demoramo-nos no abraço e na vida.
Sorrimos amanhã.
Sabe que essa coisa não tem fim, não sabe?
Saiba que não és a única, mas és única.
Auguri.
Maçã e mojito. Charuto e acidez concentrada.
Miligramas de laissez faire.