20061231

G.

G.
Eu saía de um namoro de quatro anos, que acabou sem meu consentimento e me deixou um ano inteiro num "estadinho". Sim, é padrão. G. aconteceu na minha frente meio sem querer, por causa de interesses comuns e pontos-de-vista diversos e sotaques dissonantes.
E, de novo, eu era o terceiro, a terceira margem, a alternativa oportuna ainda que estranha, a rota de fuga.
G. foi minha introdução aos cabelos pintados, às expressões em alemão, à vida em apartamento compartilhado, às viagens-roubadas, aos papos-cabeça com gente chata. G. foi minha escola de sexo de casado — e de como não deixar a rotina fazer casa nesse particular.
E era mesmo uma coisa particular.
G. me ensinou lealdade e traição, me fez perceber o quão longe eu estava da imagem que eu tinha de mim mesmo. Sim, G. destruiu minha empáfia com seus constantes ego-trimmings. Ao mesmo tempo que me deixava brilhar.
Ainda que nossa amizade tenha sido abalada pelo fim do relacionamento, pelo último papo no último café e minha decepção com a vida que ela recém comprara, G. pode sempre ligar, visto que G. é meu Grelo Falante original.
Só poderia acreditar um pouco menos na vida que comprou.

20061230

Café

Café
Tomo café com moças que nunca mais deixarei sumir. São cafés de horas e horas, como deveriam sempre ser, mas a gente não se dava tempo. São cafés plenos de carinho, de amor mesmo, sem babaquice.
E o resumo, todas elas já sabem:

A vida é muito curta para café ruim.

20061229

Hoje

hoje
Hoje um garoto de bermuda larga e skate nas mãos, passado por trás das costas, decidiu não comprar a coca-cola e sentou no skate, olhando as pessoas.

Hoje uma senhora que não sabe ainda ter câncer no estômago escolheu meia dúzia de nêsperas, as mais cheirosas nêsperas desde que ela saiu da adolescência.

Hoje um dos condutores de metrô, ao chegar à estação Marechal Deodoro, declarou nos alto-falantes: estação Tierra del Fuego.

Hoje um daschund de três meses chamado Getúlio aprendeu a subir no sofá.

Hoje uma moça se apaixonou por outra moça sem sequer ter-lhe visto o rosto; apaixonou-se pelo jeito que a outra andava, apressadamente, por entre as barracas de camelôs, enquanto ela mesma ia para casa no ônibus.

Hoje um azul se perdeu no aeroporto.

Hoje morreu um admirador de Astor Piazzola, enquanto caminhava no parque, aos 98 anos.

Hoje nasceu Bo Diddley, 78 anos atrás.

Hoje morreu Artie Shaw, há dois anos.

Hoje pensei em você.

Hoje um funcionário de uma multinacional do ramo alimentício roubou duas canetas esferográficas, uma azul e uma vermelha, do escritório, como vingança por ter de trabalhar hoje.

Hoje um amor acordou doente, cambaleou durante a manhã e achou ter melhorado após o almoço para definhar e sucumbir rapidamente antes da hora do chá.

Hoje mil bolinhas de gude foram compradas por um artista plástico; uma delas tem em si o mapa perfeito dos canais de Marte no solstício de verão.

Hoje uma menina nasceu com um olho verde e o outro castanho.

Hoje um casal de cangurus copulou; a fêmea engravidou.

Hoje há uma festa na qual dois grandes amigos se reencontrarão e um namoro acabará.

E se o tempo for a doença?

20061228

Cosmogonias

Cosmogonias
Resumindo, fica assim:

É ego quem diz ego.
É triste quem diz quero.
É pobre quem diz sei.
É livre quem morre.

E, ademais, é só porque a gente pode, percebe? God created Earth because he could. Ou, como quis o Evandro, deus criou o mundo para ter do que desistir. Ou seja, deus criou o mundo para poder deixar algo inacabado.

A gente segue criando mundos, sabe? Lembra que a gente vai comemorar a mudança de ano no dia 30, porque a gente pode. Porque, convenção por convenção, a nossa tem mais groove, tem mais piada, tem mais charme.

E amanhã eu te digo o que eu fiz e o que eu fiz que ia e não fui, mas acabei fondo. Porque é assim, daqui em diante. E quem quiser (e tiver estômago) pode vir.

No final das contas, a vida é sempre fazendo, nunca feito, jamais far-se-á.

20061227

Banguela

Banguela
Muita chuva, muito calor. Muitos amigos e amigas.
Pensamentos desconexos e a tranqüilidade que só quem já morreu uma vez pode ter.
Você mudou muito, Cangaro Giallo.
É, devo ter mesmo.
Mil fotos se espalham no chão da sala, literalmente. Pouco mais ou menos.
Ninguém tira foto daquilo que quer esquecer. Sou a prova cabal da falsidade dessa afirmação.
Mas, olha, amiga, que eu posso até não esquecer, mas estou pouco me lixando. Pouco me ferrando. Estou é pouco me fodendo.
Faço listas mentais do que preciso fazer pelo prazer de não fazer. Ou de fazer algumas. Ou de escolher o que deixar para depois.
Faço listas mentais do que eu deveria fazer pelo prazer de deixar-me fazer o que me der na veneta.
Quem diria que a vida, nesse pós-tempestade, seria assim, de plenipontenciário, de autogerido, de tranqüilidade de verdade.
Claro que tenho minhas tristezinhas e minhas dúvidas e minhas nóias. Ei, você me conhece. Mas a coisa já não está mais pesada. Você viu.
=)
I've got my time behind me.

20061226

Soul

Morreu James Brown.
Quase acendi um cigarro.

20061225

Natal

Natal
O que diabos veio você fazer aqui quando eu me escondia do mundo? Eu já não disse que não sou seu amigo? Eu já não disse que não queria ver você nunca mais? Eu já não disse que amo você?
Agora não posso (mais) escrever.

20061224

Summer stench

Hang my head
Drown my fear
Till you all just
Disappear.

Confuso

Confuso
Para ser bem sincero, esse exílio auto-imposto tem sido de grande ajuda. E tem sido uma merda federal.
Dá aquela sensação de ser um Lester Burnham, sabe? Quando tentou sair da linha, bam! O ano do sejogation, eu bem me lembrava. Não me furtei. Tomei os porres, fiz a tatuagem, viajei, tomei doce, putanhei, apaixonei, arrisquei, endividei.
E, no entanto, engoli sapos. O problema é que eu sou bulímico: vomito os batráquios, não consgio ficar quieto. E sempre houve meu timing completamente errado. Ou seja, engoli, não gostei, regurgitei, não gostaram. Foi mesmo um portento a minha capacidade de desagradar a gregos e baianos.

E os sinais estavam todos lá. Alguns em neon. E eu fiz questão de ignorar.
E as coisas que não saem da cabeça: sua crueldade; a curvinha do teu sorriso; a vontade de fumar; a impossibilidade de resolução; o fim das desculpas.
Agora fico aqui, fugindo dos amigos — ermitão de merda —, ouvindo The No-Musicians Jazz Band, pensando na vida e chegando à conclusão que eu não estou nem aí para esse negócio de Copa do Mundo, quero que o Panamericano se foda e que essa felicidade de firma toda acabe em barranco, junto com toda a manifestação-musical-de-raiz. Eu não faço parte, gente. Oê.

Chocolate meio-amargo, água, muita água, proteína, algum carboidrato e muita fibra. Nada de sal.
Três remédios, todo dia, quatro doses. Diuréticos e controle de pressão. E Clube da Luta, uma vez mais.
E o primeiro Mishima.
E vou perdendo a capacidade de escrever. Essa história de sofrimento criativo só funciona quando você tem controle da situação. Ou acha que tem o controle. Sofrimento para valer não resulta em textos bons ou manifestações artísticas quaisquer. Sofrimento de verdade deixa olheiras, emagrece, e o nariz escorre porque você não se importa mais com sua aparência.
Banho? Why bother?

2007.
Operação em oito de janeiro. Três dias de UTI. Uma semana de quarto. Um mês em casa.
Se eu tiver sorte, na minha casa.
O que é mesmo que vale a pena?

20061222

Precisa pouco

Pouco, no final das contas. Redescobrir o Mercadão de Pinheiros, revelar umas fotos e ter surpresas, um sorriso largo, gratuito, que toma os olhos de assalto. Todos os olhos, meus e dela.
Andar, palmilhar São Paulo, tomar um pouco de chuva, não querer saber do trabalho.
É pouco.
É o suficiente, hoje.

Não fumo

E quando não fumo, não relaxo.
Quantos dias ainda, de vício químico? Ou é psicológico?
Pff.

Palavrório

Palavrório
Voltamos a termos com conversas esdrúxulas só porque gostamos de usar palavras esdrúxulas como, bem, esdrúxula?
Esdrúxula, esdrúxula, esdrúxula.
Ou será que é bem porque as ruas dessa quenga dessa cidade têm metáforas por calçamento, aquela coisa assim, à guisa de paralelepípedo, que chacoalha as pessoas nos coches?
O célebro chacoalha no crânho do cerumano.
Todo mundo!
Ou eu fui aceito no círculo super secreto dos já falecidos? Ressurectos e meio débeis das idéias? Uia!
Agora o que me falta? Um barrete? Um fez? Uma caixinha com mirra? Um insulto?
Há quem se incomode com pouco, há quem se incomode. Eu flano, desde então. Eu perdi o respeito. Eu ganhei os amigos que achava perdidos. E um monte de desafetos. E vão fazer o quê? Me matar?
Que seja.
Mas matem-me no Estácio, já disse — e não é exagero repetir.

20061221

Entorpecente

Citando Cortázar, porque Cortázar foi seu presente, e agradecendo a visita, oportuna, de surpresa, indispensável: basta tocar em suas cadeiras ou sentir o cheiro de sua serragem para me sentir menos bom, menos feliz e menos estúpido.
Obrigado, caríssima.

Libertas

Libertas
Nem sequer vale a pena lembrar agora o que foi que aconteceu lá. Saber o que iniciou essa série de eventos que nos trouxe até aqui só diminuiria a mágica imanente em todo o processo. Não, nem mesmo falo do chavão de "valer mais a pena a viagem que o destino" ou qualquer outra bobagem folhetinesca do gênero. É só que parte da força da cadeia de cagadas ou golpes de sorte está no início obscuro — e lhe damos a explicação que quisermos.
Cosmogonias são boas de se brincar porque são legos conceituais e lingüísticos, no final das contas. No final da análise. No final da garrafa.
Não. Essa insistência toda de me perguntarem os porquês tem algo de sádico e eu finjo que respondo porque as pessoas humanas precisam de um mínimo de certezas. E não posso lhes dizer a verdade sem correr o risco de criar religiões ou destruir vidas. Simples e arrogante assim. Porque entender o que acontece a nosferati não é para quem ainda tem alguma esperança.
Perceba, caríssima, que eu perdi as desculpas que me dava, e a cada dia é mais difícil mentir para mim mesmo. Isso certamente vai me enlouquecer no médio prazo. No curto vai me deixar mais divertido e mais intolerante. Sem causalidade aqui, repare.
Eu pago contas, visito amigos, trepo, escrevo, cozinho, tiro o lixo, finjo simpatia, ignoro os apupos. Eu descobri que posso levar isso até o fim da vida, mas que não quero. Eu percebi que seus joguinhos são rasos e eu não os quero.
Minha terapeuta pareceu mesmo assustada quando eu lhe mostrei a liberdade que um prazo de validade pode te dar. Pela primeira vez, eu tinha resposta para todas as intervenções, porque a coisa nunca esteve tão clara. Lá pelas tantas eu tive de ouvir "Eu não sei o que dizer."
É esse o nível a que cheguei.
Liberdade.
É solitário aqui. E dá um medo desgraçado. Mas não tem saída.

20061220

F.

F.
O sorriso largo de F. sempre foi alvo de comentários maledicentes de pessoas pobres de espírito. Era um desfile de dentes e lábios carnudos que me dava tesão e um certo desdém. Afinal, risos fáceis…
A veemência em viver de F. sempre foi alvo de críticas e reparos a seu comportamento, feitos por pessoas mortas, pessoas pequenas, pessoas míopes. Para mim era um admirar a passagem, um aproveitar ensejos de fazer rir o mundo e um aproveitar o excesso de vida que transbordava e derramava em quem estivesse aberto.
A sinceridade brutal de F. não deixava pedra sobre dúvida, cobra sem pau. E era F. de uma fragilidade que não fazia muito sentido. Mas eu sempre dei tento às pequenas escorregadelas de F., apoio sempre que vinham aqueles olhares compridos de cachorro perdido.
Nosso começo falso, F., naquela noite regada a boa comida e a boa bebida, foi uma das maiores decepções na minha vida. E, ainda assim, o carinho não arrefeceu, o tesão hibernou e a admiração continua.
Porque F. dá vida a quem quiser, é só eu vencer a preguiça e ir buscar. Onde quer que ela se esconda.

20061219

Sem imaginação

Sem imaginação
…he experienced something that resembled happiness—a microscopic shudder, a surge of transitory bliss.
Após começar vite posts e descobrir que a conexão daqui anda mais fraca que minha capacidade de escrever o que sinto sem ser brega e óbvio (amizade, amor, transitoriedade da vida, perspectivas de futuro — coisas que dão caldo, mas não nos últimos dias de confinamento), melhor deixar outros falarem, como o Auster, aí em cima.
Tic-tac, ainda é nove e quarenta
O relógio na cadeia anda em câmera lenta.

Racionais é melhor do que eu tenho escrito. De longe.
E sim, ando de calças bege.

Cateterismo 2.0

Hoje tem cateterismo. Abrem um buraco numa artéria, na altura da virilha, enfiam o catéter e vão empurrando a parada até minhas coronarianas para ver qual a extensão do dano de cigarro e álcool e alimentação gordurosa.
O primeiro foi há mais de trinta anos. Eu não lembro.
Estão me dando um anti-alergênico pesado porque o contraste é feito com iodo, e eles não sabem se minha alergia a camarão é causada pelo iodo ou o quê. O que eu marquei pesado foi não ter pedido para alguém contrabandear camarão. Eu estou num hospital, oras. Era só avisar e alguém viria com alguma injeção (podia até mesmo ser a cortisona) e pronto: 23 anos de abstinência de ebi resolvidos.
Bom, mas hoje à tarde vão fazer essa incisão e eu vou ter de passar de agora até lá em jejum e, depois, em repouso. Sem sequer ir ao banheiro. Com a quantidade de diuréticos que estão me dando (é eu sei que estou repetitivo, mas quando se é um cerumano tão bem resolvido com as práticas do toilette, esse negócio de fazer pipi a cada quinze minutos é um perrengue), pode significar um desastre moral.
Ah, perdi cinco quilos em uma semana. Depois da dieta da separação, a dieta do coração fodido. Ou seja, o segredo de emagrecer é foder seu coração, de um jeito ou outro. Quinze quilos. Já posso escrever um livro e anunciar em infomercials.
Ao que tudo indica, amanhã volto para casa. E volto a escrever textelhos.
Para operar em meados de janeiro (e não mais este ano).

20061218

Relatório

Dando a letra pros aliados que vêm aqui buscar novidades: parece que cirurgia é uma opção. Ou seja, subimos para um mínimo de dez anos com qualidade de vida. Hm. Até os 47, minha gente, não parece tão ruim. Depois dá até para virar monge.
Se tudo correr bem, cateterismo amanhã e operação marcada para meados de janeiro. Começo de ano bom, quem é que estava reclamando de 2006?
Vocês não me reconheceriam…

Ah, e depois de perder dois posts grandes, resolvi que não rola mesmo postar daqui. Tenham paciência. Eu tenho.

20061217

Epitáfio

Epitáfio
Você não existe mais.
Você, como eu conheci você, pessoa esquisita, que lê esse blog, já tão mudado e escondido para evitar olhares curiosos, não existe mais. Já é outra pessoa.
E tudo isso porque eu morri ontem.
Há uma válvula que deveria ter três abas. Se não tiver as três abas, não pode ser minha válvula. Mas o fato, congênito e inegável, é que a felha tem duas abas. Isso não deveria ser de importância tremenda, mas forçou a porra do músculo cardíaco.
A válvula defeituosa se liga ao ventrículo xis; o ventrículo xis se liga ao ventrículo epsilon; o ventrículo epsilon se liga de alguma forma aos pulmões; os pulmões se ligam ao cérebro (tá entendendo?); o cérebro se liga ao coração de um jeito bizarro, e o último ano foi o king-kameha-meha-bizarre-ride. Daí que em um ano minha cabeça doente detonou meu coração demente com stress e paixões idiotas e o dotô falou:
Depende…
Depende! Fodeu! Se depende, é porque ainda há chance, se há chance, eu acabo tendo esperança. Se eu espero, me decepciono.
Não.
Não dessa vez, jacaré.
Dessa vez não.
Dessa vez o papo foi mais direto e, diretamente, eu perguntei ao dotô: e isso me dá quanto anos de vida?
— Não dá para fazer rodeios com você, né? Você é mais…
— Mais esperto que a maioria dos ursos. Quantos anos?
— Se der para operar, entre dez e vinte. Se não der, entre cinco e dez anos.
Cinco anos, dawgs.
Cinco anos.
Eu contava com 40.
Vai vendo.
Cem coisas para fazer em cinco anos. Já comecei a lista.
Zerei a vida ontem: dezessei de dezembro de dois mil e seis. O ano felhadaputa cagado dos infernos. Não tinha jeito melhor de acabar.
Então me lembra que eu morri ontem. 16/12/2006.
Então me lembra que cinco anos é tempo paporra, e que pode ser que dê para operar e aí eu ganho até 20, e pode ser que role um transplante em 15 anos, o que me daria mais uns 20 anos, ou seja… Os 40 anos que eu achava que teria.
Mas eu prometi não me prometer nada.
E uma das vantagens do prazer sobre o sofrimento é que você pode parar de sentir prazer quando quiser.
Bem.
Vomitei.
Quem sabe amanhã a reflexão volta.
Eu morri ontem, sabia?
Agora o funeral é o meu.

Evil dick

Auster ficcionaliza:

That was the logic I used on myself in any case, and it functioned as an effective smokescreen between my head and my heart, between my groin and my intelligence. For the truth was that I had no idea what I was doing. I was out of control, and I fucked for the same reason other men drink: to drown my sorrows, to dull my senses, to forget myself.

in Leviathan

Dead man post no thoughts

Ausência causada por insuficiência cardíaca, somada a pressão intra-pulmonar alta. Resultado: internação que deve durar até terça-feira.
Fichas caíndo a torto e a direito. Não passa um minuto sem que se pense um pouco mais profundamente nas implicações de ter sua própria vida limitada: prazo de validade.
Sim, eu tc do Incor. Não, não é piada.
Depois eu conto mais, que a conexão é aquela coisa e os diuréticos que me deram só permitem postar hai-cais.
E olhe lá.

20061214

Countdown

Countdown
Não há saída senão esperar e relevar.
De resto, não há saída.
Então eu guardo a falta de tempo, a ausência doída, a determinação de me afastar.
Eu tomo chá de sumiço e como do pomo do esquecimento e me banho no Styx.
Porque eu tenho um multipass e posso entrar e sair quando bem entender.
Você não acredita.
Você não tem idéia.
Quer o oráculo que as coisas começam a se ajeitar. E olha que é bem a contra-gosto. E eu até arrisquei, mas tá que o Universo conspire a favor. Nãããão.
Mas eu não desmarquei nada. Eu faço bobagens, sim, mas sempre com convicção. E assumo a culpa pelas decisões erradas. E compartilho todas as pequenas vitórias.
E ainda tenho de ouvir que não sou chato nem mal-humorado. Que sou doce. Doce, percebe? E ela me conhece há dois cafés.
Bah!
Então deixa correr. All commands are set flat. As fichas estão lá nos numerinhos e eu posso até ir olhar a paisagem, que o crupiê é meu amigo e não deixa de avisar. Qualquer que seja o resultado.
Amanhã a gente vê o que pega.
Amanhã a gente define o que fazer.
Hoje, tecnicamente.
Sallut.

20061213

Resoluções

Resoluções
Tudo o que eu sei cabe num palito de fósforo. Tudo. Apesar de não haver ainda tecnologia para registrar, cabe.
Tudo o que a raça humana sabe, na verdade.
Engraçado como isso não me faz menos estúpido: continuo com um orgulho intelectual besta, besta, besta. Principalmente quando você conta qual é a mágica de fazer uma enciclopédia caber num palito de fósforo e nego não consegue entender.
Quando essa turba não entende a diferença entre física newtoniana e a teoria da relatividade. E eu sequer tento explicar física quântica.
Besta, eu dizia.
E aí a coisa pega mais pesado quando eu tenho de explicar piadas. Quando eu preciso explicar a piada, eu quero fugir. Sair correndo, gritando e fingindo de louco. Ao menos as pessoas se sentiriam mais confortáveis em não entender. Ah, ele é louco mesmo.
E isso se amplifica quando eu tenho conversas boas como as de domingo ou de hoje. Apesar do mal-estar, o cérebro ainda funciona. E o tempo, essa dimensão que incomoda de Agostinhos a Tedescas, de Murakamis a Anas, de Aristóteles a Cangaros Giallos, esse segue tomando o que lhe é de direito. E mais um pouco.
E mais um pouco é só o que falta para acabar esse ano esquisito de 2006, que já vai tarde, que vai sem saudades, que me tomou muito mais que o coraçãozinho hipertrofiado, o pai, a promessa de um relacionamento inaudito e uma parceira de tango.
Vai, felha. E me deixa em paz.
Para 2007, acho que é comer melhor e dormir melhor. E relaxar um pouco mais. Não vou prometer o que não posso cumprir, que eu já me devo demais. E eu sou um puta dum credor chato paporra.

Maravilhas da tecnologia moderna

Mexi em todas as configurações do Blogger e do meu server. De nada adiantava. Os arquivos simplesmente não funcionavam.
Desisti.
Sem aviso prévio, voltaram a funcionar.
Vai ver foi o ebó.

20061212

Inutilidade

Inutilidade
Eu vejo você caindo e não posso fazer nada. Olha, eu bem tentei. Estendi a mão. Dei conselho. Falei das minhas experiências, contei causos. Metaforizei e fui direto. Quase rude.
Eu joguei a corda, com aquela bóia amarrada. Eu tentei levar a culpa, eu tentei chamar sua atenção. Eu te pedi em casamento. Eu comprei remédio. Eu marquei teu dentista, médico, pai-de-santo, psicóloga.
Eu tirei você para dançar.
Eu vejo você se perdendo e me desespero porque eu estava segurando a lanterna, te dei o mapa e a bússola, deixei pegadas e migalhas de pão. Amarrei o fio e fui desenrolando, tirei a venda dos teus olhos e trocava o pronome a cada frase para ver se você estava prestando atenção.
No final das contas, eu fiz a comida, arrumei a cama, preparei o banho, fiz massagem. Nas costas, no ego. Fiz-me de bobo, fiz caretas, fiz serão, serenata, hora-extra.
Engraçado. Você cai e eu quebro a cara: sempre achei que ia assistir de camarote, comendo pipoca e rindo risos de vilão de quinta. Mas não, mas não, fico aqui angustiado tentando mais um pouquinho, mais um jeitinho de te agarrar, de te salvar. É, eu sei que você não pediu para ser salva, e até me disse que eu não posso ajudar a todo mundo, mas eu não quero ver você se esborrachando toda, percebe?
Eu não consigo sequer fazer a cara de eu-te-disse que tanto gasto a cada dia. Eu sofro a cada centímetro. E não adianta colocar um colchão embaixo, adianta? Não. Nem mesmo ficar esperando com vassoura e pá de lixo e superbonder para colar de volta.
É tua a queda.
É meu o dano.

Murakami é um felha

Fairness is a concept that holds only in limited situations. Yet, we want the concept to extend to everything, in and out of phase. From snails to hardware stores to married life. Maybe no one finds it, or even misses it, but fairness is like love. What is given has nothing to do with what we seek.

Afinal de contas, cremos, love is what makes the ellephants forget.

Murakami é metido

What was so depressing?
Who knows? Maybe that was "despair." What Turgenev called "disillusionment." Or Dostoyevsky, "hell." Or Sommerset Maugham, "reality." Whatever the label, I figured it was me.


Você tem que adorar o cara. E se você entendeu exatamente o que ele quis dizer, parabéns, você é pior que eu.

20061211

Radical

Radical
Mandei o mundo à merda. Vendi meu superego pro Cezinha, do Thundercat Games. Ando nu.
Em dois minutos, virei celebridade. Todo mundo puxando ossaco.
E eu queimei a língua: o povo gosta mesmo é de ser maltratado.
Vai entender.
Agora eu cofio bigodes e cuspo no chão.

20061210

Arquivos

Os arquivos foram pro saco. Tentando fazer voltar. Não que mais de duas pessoas ever se dignaram a lê-los. Ainda assim, respeito aos dois.

Terminado

Terminado
Pois eu fui lá e disse assim:
Eu não sou seu amigo.
Eu não vi boa-intenção.
Eu não ajo asism.
Eu não acredito em você.
Eu não quero pedaço.
Eu não sei o que estou fazendo.
Eu não suporto menoscabo.
Eu não queria que assim fosse.
Eu não sou responsável pelos seus atos.
Eu não vou deixar você me fazer sofrer mais.
Eu não pedi para me apaixonar.
Eu não creio que você saiba o que está fazendo.
Eu não tenho explicações.
Eu não consigo te esquecer.
Eu não concebo saída.
Eu não acho uma boa idéia.
Eu não creio nisso.
I'm not your daddy. Though someone has gotta be.

20061208

Hard-boiled wonderland

Murakami fala de sofás.

Typically, they're cheap deadweight. Even the most luxurious-looking sofas are a disappointment when you actually try to sleep on them. I never understand how people can be lax about choosing sofas.

I always say—a prejudice on my part, I'm sure—you can tell a lot about a person's character from his choice of sofa. Sofas constitute a realm inviolate unto themselves. This, however, is something that only those who have grown up sitting on good sofas will appreciate. It's like growing up reading good books or listening to good music. One good sofa breeds another good sofa; one bad sofa breeds another bad sofa. That's how it goes.

There are people who drive luxury cars, but have only second- or third-rate sofas in their homes. I put little trust in such people. An expensive automobile may well be worth its price, but it's only an expensive automobile. If you have the money, you can buy it, anyone can buy it. Procuring a good sofa, on the other hand, requires style and experience and philosophy. It takes money, yes, but you also need a vision of the superior sofa. That sofa among sofas.

Desiludido

Desiludido
— Eu queria ser um pregador…
— Você?
— É…
— Como assim? Logo você? Um presbítero?
— Não. Um pregador. Desses de roupa…
— Hein?
— É, um pregador, um botão, um clipe de papel. Alguma coisa muito simples, muito mundana, muito útil e muito sem valor. Ninguém compra um pregador, essas coisas vêm em montes porque não vale a pena vender a unidade…
— Continua.
— Então, eu queria ser um pregador. De madeira, com aquele ferrinho no meio. O mais baratinho, o mais ordinário. Uma dessas porrinhas que você usa pracaralho, mas não dá o menor valor.
— Estamos falando de mulher?
— De certa maneira. Um pregador não tem de lidar com rejeição. Ou você escolhe um pregador melhor para as roupas melhores e deixa os mais vagabundos para, sei lá, meias?
— Eu não penduro minha roupa.
— Imaginei. Mas um pregador não tem ambição, saca? E não dura muito…
— Estamos falando de amor?
— Também. Eu queria ser útil durante algum tempo. Quebrou, joga fora. Tem zilhões iguais. Não são difíceis de encontrar. E são versáteis.
— Meu, você precisa se tratar…
— Sim, nunca neguei. Mas faz sentido?
— Faz. Só não faz bem.
— Blimey!

20061207

Cobaia

Cobaia
She has me all figured out.
E eu entro no jogo, com medo de ser manipulado. Não, é nessas horas que a gente precisa ser honesto: consciente de ser manipulado.
O mais interessante é o quanto ela se diverte me manipulando. Mesmo ciente de que sei. E que estou nessa voluntariamente.
Hoje não foi diferente. E, como sempre, sinto-me ridículo. E vou até o fim. E até que dei risadas. E quase chorei.
E, se ontem fiz a coisa certa, hoje fiz tudo errado. E semana que vem eu me submeto a mais testes. E adio o dentista. E o médico. E sigo fumando.
E a desculpa da sem-vergonhice já não convence mais ninguém. E o ano está acabando, junto com as desculpas. E os amigos se acumulam, cada vez mais próximos, cada vez mais sãos. Sãos por comparação.
Eco.
Eco.
E seguem as músicas me dando toques. E sigo tirando músicas como se eu sempre tivesse tocado esse treco. Sai assim, de estalo. E a sem-vergonhice, aquela, não me permite estudar a bodega e eu vou sempre ser esse quase-bom.
Mas eu dizia que ela me manipula. E às vezes me tortura. E sempre me bate. Não dá para ficar impassivo. Não dá para mandar à merda, também, porque ela parece que sabe o que está fazendo. E eu quero ver onde isso vai chegar. Eu sempre pago, reclamo, mas pago.
E tenho pago regiamente.
One way or the other.

20061206

Pés

Pés
Senão, vejamos…
Você não gosta de perder o controle, né, Cangaro Giallo?
Caralho! Não, né?…
Mas também não posso aparentar fraqueza, embora eu saiba que ela me lê tão facilmente quanto eu me confundo. Eu não tenho a menor puta idéia de como ela pensa. E, é claro, não tenho a menor vontade de ler-lhe os pensamentos.
Não, eu tenho de continuar fingindo para mim mesmo, que é a forma de tornar essa porra toda verossímil, no mínimo.
E o que diz o seu pé?
Meu pé me diz que nesse ritmo não dá, porque é um não-ritmo. Eu preciso de ritmo, ainda que ele varie e seja livre. Um pedal point, se é para fazer piada que aqui estamos, ainda que a piada seja forçada e hermética e tals. Meu pé também me diz que eu ando ansioso (e a piada agora foi involuntária) e que eu preciso aprender a boiar. Disse-me, meu pé, ao pé do ouvido, que eu me sujeito a essas coisas porque eu não tenho vergonha na minha cara amarela, porque eu não tenho medo de passar ridículo e porque eu vivo.
Mas eu disse que não a qualquer preço. E o preço já está muito alto.
You can't afford it if ou have to ask
They leave you nothing, you do the math.

20061205

E.

E.
E. tinha olhos de cabra sonsa. Ou algo do gênero, uma vez que emprestei isso de Graciliano Ramos, ou de Guimarães Rosa.
E. tinha um jeito assertivo de não me deixar dono da situação em nenhum momento. E não sabia bem se me queria de verdade. Igual a todas as minhas mulheres, E. sempre teve dúvidas, mesmo antes de me conhecer.
Deu-me E. o benefício da dúvida também, e brincava comigo como se não fosse nada pessoal. Igual a todas as mulheres da minha vida.
E. gostava de uma DR e me ensinou a odiá-las. Às DRes, não às mulheres.
Depois de muita provocação, E. me viu trocá-la por uma outra moça, mais nova, mais fácil, mais loira. E optou pelo outro rapaz daquela relação complicada, quase não-relação. É, parece uma outra história que andei contando por aqui.
Ligou-me E., anos depois, tateante, sem saber bem porque me ligava. Eu não pude ajudá-la a descobrir. Mas ficou a curiosidade de saber como andava E., com quem se divertia a não-saber, a discutir.
Falando assim, parece que era bem chata, E. — e talvez mesmo o fosse. Mas parece-me também que nunca vou descobrir ao certo. De E. guardo o filme que ninguém além do nós três, viu, as caronas que eu lhe dava no Passat e a noite na praia, em apartamento de amigo de amigo.
E o nome não-convencional, que evita que eu lhe esqueça as olheiras e os lábios.
Precisando, liga, E.

20061204

SMSeando Cortázar 7

"Talvez fosse a hora de parares de embalsamar tuas recordações e perderes o que levas nos bolsos."

Pior é embalsamar os sonhos, ketamine. Ou os desejos
O bolso vazio pra sempre, já pensou?


Bolsos vazios são ótimos para vagar. Cacoete de vagabundo...

SMSeando Cortázar 6

"Talvez fosse a hora de parares de embalsamar tuas recordações e perderes o que levas nos bolsos."

por gtalk:

eu tive um primeiro beijo empalhado que ficou uma graça. tem aquele primeiro tombo de bicicleta, tb, parece que tá vivo, julio! taxidermistas e embalsamadores fazem milagre hj em dia, menino, até quando viram esteticistas... =)

SMSeando Cortázar 5

"Talvez fosse a hora de parares de embalsamar tuas recordações e perderes o que levas nos bolsos."

Ah, ta ta.

Sem vergonha

Sem vergonha
Você pode comer esse pote de nutella sozinha, ou pode compartilhar comigo.
Eu posso continuar te mandando textos confusos, ou posso nunca mais falar com você.

Não há nada mais estranho que fumar o último cigarro. Às duas da manhã, sair para comprar mais não é alternativa. E a constatação de que não preciso mesmo de cigarros é equivalente à pergunta que me faço: por que mesmo é que eu quero tanto você?

Eu posso gravar a música que compus olhando para a sua foto ou posso fingir que não me importo.
Você pode continuar mentindo ou pode simplesmente me mandar à merda.

Fazia tempo que eu não transava assim, de ficar com o pau doendo. Eu guardei no fundo da garganta o teu nome, que era bem outra mocinha que me exigia mais, e mais eu dava, consciente do amanhã. E amanhã nos veremos e eu, de novo, fingirei que ain't misbehavin'. Mas, sabe, amor, sexo, essas coisas nem sempre andam juntas.

Você pode me olhar como quem não sabe bem o que fazer, ou pode abandonar seus preconceitos de uma puta vez.
Eu posso pedir uma delas em namoro, ou posso pedir as contas.

A enxaqueca bate outra vez, faz minha vista turvar e minha cabeça sair um pouco da letargia. É como um reminder do passado que não nos deixa porquanto nos define. E havemos de lutar com essas determinações imperfeitas porque é mister mudar. Change is good, after all.

Eu posso voltar a ler o Kawabata, o Cortázar ou o Capra, ou ficar aqui, escrevendo nu e morrendo de vergonha.
Você pode se embebedar mais uma vez, ou pode fugir mais um dia.

A arte da conquista, do flerte, parece que não muda desde que a raça humana resolveu inventar a linguagem: falada, arbitrária, convencionada. Eu me aporrinho com esse tipo de joguinho porque nada muda. Se há quem tenha vergonha alheia, perceba, eu tenho tédio alheio. E me arrogo o dever de tornar os dias dos incautos mais surreal um tiquinho. Pena que poucos há que entendam.

Você pode definhar, morrer um pouco a cada dia e não saber o que está perdendo, ou pode ir comigo a Fez.
Eu posso esperar, ou posso enlouquecer de vez.

Grandes decisões, a mim me parece, são tomadas no susto, na pressão do surto psicótico do foda-se, que seja, então. Grandes invenções me parecem cagadas homéricas que acontecem quando ninguém está olhando e o sujeito tem tempo de inventar uma explicação qualquer que faça um sentido mínimo. Grandes descobertas têm cheiro de estupefacientes, ou noites de insônia e sinapses alquebradas; ou simplesmente de idéias roubadas à irmã menor. Grandes amores, quero crer, são feitos de rotina suportável, iguais porções de sexo e provocações cerebrais, sorvete, e do acordo tácito de não subestimar a inteligência alheia. Todo o mais é Ciência.

Eu posso ir dormir.

20061203

SMSeando Cortázar 4

"Talvez fosse a hora de parares de embalsamar tuas recordações e perderes o que levas nos bolsos."

por e-mail:

Se sua intenção foi me desafiar, aqui vai a minha frase:
"Não há muito o que dizer sobre o quadro, mas a princípio tem aquela atmosfera de solidão que nunca ocorre nos sonhos mas que depois, olhando o quadro, pensamos estranhamente que é uma solidão onírica." (não preciso dizer que é Cortázar...)

Mas se sua mensagem foi uma dos seus clássicos spans.... só tenho a dizer que a frase me tocou, que por mais que eu queria e lute não consigo deixar certas recordações... é tudo aquilo que eu sou, bolsos cheios de botões (não se preocupe em entender... coisa de ex-loira)

SMSeando Cortázar 3

"Talvez fosse a hora de parares de embalsamar tuas recordações e perderes o que levas nos bolsos."

E onde eu coloco a tralha toda? ninguém quer nem dado. talvez algum estudante aceite, e se for o caso partimos no primeiro raiar.

Família vende tudo. Sonhos são de graça.

Agradeco a oferta, mas nao posso nem com os meus, tem guardanapos de pano?

Não, mas tenho amigas louçãs para quem cozinhar

SMSeando Cortázar 2

"Talvez fosse a hora de parares de embalsamar tuas recordações e perderes o que levas nos bolsos."

Mais que hora ;-)

SMSeando Cortázar 1

"Talvez fosse a hora de parares de embalsamar tuas recordações e perderes o que levas nos bolsos."

O que tem no bolso nem me pertence.

Então doe teus sonhos para que eles voltem a te pertencer.

32ºC

32ºC
O calor continua firme, derretendo os canos de borracha de todos os carros estacionados há mais de cinco minutos em São Paulo. Falta de brisa. O calor nos deixa cansados e preguiçosos e continuamos consistentemente tendo de redigitar ao menos uma letra em cada palavra maior que cinco letras, Hortelinos dos Teclados.
E tendo de revisar texto de blog, porque assim não dá.
Bate invejinha de Bee, soterrada em neve, em cenário de Esqueceram de mim que, achamos, deve estar mais para Fargo, muito embora a situaçã seja mesmo de O Iluminado.
Usamos plural majestático porque sempre falamos de mim, da minha preguiça, da depressãozinha que fugiu de Ornette (meu gato imaginário) e dos meus sonhos de praia longínqua, curvinhas de sorriso e neve. Muita neve.
Mas abrasa, o sol, qualquer vontade de sair e fazer algo que faça sentido. Torcemos para C. não ligar e nos cobrar a ida à Bienal, torcemos para A. não ligar e nos cobrar o café, torcemos para V. não ligar e inventar algum novo jeito de nos torturar.
E tomamos uma surra de, er, hm, vocês sabem, que nos deixou dolorido, cansado, com um sorriso besta na cara amarela e com vontade de que o mundo acabasse em barranco, neste trêsdodozededoismileseis, porque nossa biografia teria final feliz com feitio de Almodóvar. Ainda que ninguém nem não lesse.
Mas já dissemos que as coisas foram se ajeitando esse ano? Que só faltam aí duas delas e poderemos pensar em outras coisas, arranjar problemas novos, mais fortuitos e que não requeiram prática nem tampouco habilidade? Sim, estamos quase lá. Quase no outro ano, quase no fim da impotência que nos foi imposta por mocinhas, vermes e progenitores.
Doismilesete promete mudanças, as físicas e as demais. Change is good. E não passa um dia sem que mudemos. Um dia por vez.
Deixa que digamos: que venha o verão. Já não ligamos tanto assim. E que venham as férias, em fevereiro. We can take it. Mesmo que nos emperrem as sinapses, mesmo que nos derretam o humor. Sempre há os cinemas e museus e seus climas controlados; e se não os houver, os shoppings farão a vez. Qualquer lugar de fugir, qualquer luz artificial, qualquer beijo-na-boca efêmero. Que ao menos seja também epifânico.

20061201

Autuado

Autuado
O Coletor de Impostos fazia exemplo do trabalho. Nada o detia, nada o impedia. Sua religião, sua vida, sua razão no mundo.
Chegou lá em casa e começou perguntando por quê ainda não troquei a campainha, por que ainda não coloquei a campainha de blim-blom? Cadê o sofá, cadê a luminária, cadê o conserto do som, por que não pendurou o espelho, por que não comprou sorvete?
A cada indagação, era uma rabiscada no bloquinho com sua caneta imitação de tinteiro com grip feito de elásticos de dinheiro. Rasc-rasc-rasc, rasg, e tome lá mais esta notificação, senhor Cangaro Giallo. Mas isto é mesmo um descalabro, senhor Cangaro Giallo.
A cada indignação passava o Coletor de Impostos o lencinho pela testa e dava microchiliques de tremeléns. Ah, mas veja só o estado desta auto-estima, senhor Cangaro Giallo, assim não há possibilidade. É mesmo um caso para o Departamento, senhor Cangaro Giallo. Já teve a honra de ir ao Departamento, senhor Cangaro Giallo? Uma beldade entre autarquias, eu lhe digo.
Rasc-rasc-rasc, rasg!
Eu seguia aquela figura imensa, curvada pela idade, cheio de empáfia a si conferida pelos anos de serviços prestados, anos, senhor Cangaro Giallo, anos na lida, em bem lhe digo, sou um bastião da diligência, e um probo, se me perdoa a imodéstia. E seguia escrutinando minha vida recente, tão mínima desde há um ano.
Não posso crer nesse coração roto, senhor Cangaro Giallo, assim não há cabimento!
Rasc-rasc-rasc, rasg!
Deixou-me naquela tarde, após visita de uma hora na qual tive de fazer café e produzir sorrisos e ser simpático. E recolher os papelitos de esperar a conta.
Deixou algumas multas e muitas notificações. Deixou também o cheiro e o ranço, pó, mofo e tacanhice averbada. Tentei devolver a inveja que caiu do bolso do paletó, puído nos cotovelos, cor-de-massinha-misturada, mas ele negou a posse do sentimento. Bem se vê que não está acostumado conosco, funcionários, senhor Cangaro Giallo. Não temos tais coisas, não percebe?
Olhei o Coletor de Impostos transpor a soleira, tranquei a porta e joguei a inveja e os papelinhos pela janela para ir viver um pouco mais em dívida, um pouco mais detratado, um pouco mais livre.