20061130

Escusas

Escusas
O post de hoje morreu com o iBook.
Falava de três pessoas que sairam para beber, falar mal de si mesmos em turnos, fugir às responsabilidades e intoxicar-se. Usava esses truquezinhos baratos que uso com as palavras. Nada muito genial. Nada digno de nota.
Falava de realidades alternativas à noite de ontem.
Contava um pouco do dia ruim de hoje.

O post de hoje morreu com o iBook, mas eu gosto de pensar que o comeu Ornette, meu siamês imaginário. Afinal, everybody wants to be a cat.

20061129

Reality check

Reality check
It started to hurt. Really hurt.

One hopes it starts to heal.

20061128

Amparo

Amparo
A gente pega no pé um do outro por não ter opção. A opção seria deixar de ver um ao outro e, apesar do Universo conspirar, a gente é non sequitur demais pra dar bola.
A gente se estapeia e se xinga porque a gente sabe que é de elogio em elogio que a gente pode empedrecer. E a gente briga diuturnamente contra essa história de "eu sei" e "eu tenho certeza" e a gente se agride mais quando um dos dois vem com alguma bobagem do tipo "é claro que…"
Não, não queremos paz, não voltamos atrás. E nem gostamos tanto assim de punk rock.
A gente chafurda pra mostrar ao outro os hematomas e os ralados e aqui, ó, tinha um sanguessuga, mas eu queimei com a ponta do beck e era o último beck, sanguessuga desgraçado. E fica fazendo concurso de escoriações e ganha quem se fode mais.
A gente põe os corações na mesa e destrincha com pegador de macarrão e tesoura de cortar peru de natal, ou com bisturi e aqueles apetrechos todos de Gêmeos, mórbida semelhança, que não servem pra muito mais que essa brincadeira masoquista de se arreganhar.
Sabemos que não vêm palavras de conforto, só tapas na cara, mas é assim que nos amamos.
A gente brinda e fuma e se acaba na esbórnia e acaba com a saúde um pouquinho mais, que não duramos para sempre e podemos parar quando morrermos.
A gente se olha e não sabe bem o que dizer e diz qualquer bobagem do tipo "50% da comunicação humana é linguagem fática", e emenda com mais 50 teses de segunda mão, compradas no saldão do sebo, que a gente é besta, mas não é bobo.
A gente é amigo, pôxa.

20061127

Mimado

Mimado
O conforto vem em cinco formas.

Castanhas de algum tipo cobertas de algum doce de fazer quéqui-quéqui, o papel da TV na eleição de Kennedy (contra Nixon), comida mexicana e frozen margerittas, genitais raspados, cigarro indiano, ética protestante e discurso cristão do Bush, café, juras de amor eterno. "Informação é commodity. Conhecimento é poder."

Supermercado e escolha de produtos perecíveis, partilha de tesão acordado, cúmplice, cozinha experimental, mal-entendidos, fusili e molho alle sete herbe, bife com alho e semente de mostarda. Você vai morar em um hotel nas montanhas, durante o inverno? Redrum!

Bagel, salmão, cerveja e tequila. Eu danço, mal, como todos podem atestar, mas sirvo de diversão constrangedora aos ébrios salutans. Cabelos encaracolados e ingenuidade treinada diante do espelho. Tatuagem de dragão e sensualidade ensaiada diante do espelho. Eu ofereci meus serviços de guarda-costas e era à vera.

Troca de candices e fluidos corpóreos em intermináveis sessões de desafios dentais, recolhimento exausto, olhos brilhando, cabelos sem-fim, rosto inapelavelmente inconspurcado no sono merecido, pós-gozo, pós-vida, pós-coito, post mortem. Durma, dulcíssima, eu fico vigilante.

Decepção esclarecedora, liberdade de Torre invertida. Dói, mas faz bem, muito depois. Ufa. Ai. You are the only one who dreams like you.

Não necessariamente nessa ordem.

20061126

Displicente

Displicente
Vai o blog ao deus-dará.
Que, se deus não der…

Deixar a vida ir, boiar, assumir o laissez-faire. Não torna as coisas muito mais fáceis. Não, crianças, continuo fazendo de tudo, saindo com amigas, agradando mocinhas, libando com amigos.
Libando.

Então?
Então… Então que falta e a gente sabe e faz de conta que não. Finge bem. Bragarai.
Todo mundo acredita. Até o porteiro. Até a dirgra.

Mas.
Porém.

Retorno, escevendo cada vez pior, que essas coisas são mais de prática que de talento. Ao menos no meu caso. Boa viagem a Bee. Boa semana a Li. Boas mudanças a T.
Amanhã eu fico sério.

20061120

Queda

Queda
Assente, ascente.
Eu quase vejo teu rosto. Eu quase vejo.
É uma silhueta, ou uma sombra — e ando tão cansado que por pouco não vou ao dicionário certificar-me que escrevi silhueta certo. É uma antevisão ou, ainda, um composite de todas as mulheres da minha vida.
Guarda que, ultimamente, eu peço ao Hades por uma coisa apenas: inspiração. Em forma e cheiro, um alento qualquer. Euterpes e Calíopes e Terpsícores. Érato, se eu estiver particularmente sortudo no dia.
Alguém na Terra (e guardai-nos, Pessoa, dos semi-deuses) há de me emocionar. Algo mais que meu sorriso sarcástico-condescendente. O pior tipo. Aquele que me dá fama de arrogante. Alguém que me arranque da bobice diária da seriedade inútil de procurar. Porque esse é o mal: procurar. E eu não procuro, embora esteja atento. Não, não faz sentido. Era para fazer?
Mas a queda não é sem charme. E divertem-me no caminho todos os escombros e restos de mundos e tempos distorcidos de túnel criado por gravidades impossíveis. Buraco negro kubrickiano, que é mais lisérgico e tem a vantagem de não precisar ser de verdade.
Mas é tudo isso para dizer-te, querida (a quem quero, e danem-me todos os koans e todos os ensinamentos budistas que aprendo e apreendo, mas que jamais sedimentam: quero), que deixo esse capricho de ser Atlas a outrém. Façam bom proveito.
You load sixteen tons and what do you get?

20061119

Leniente

Leniente
Perdi minha leniência e me pedem um pouco de doçura, ultimamente.
Try a little tenderness, se preferem.
Quero que sejam causas a quantidade de trabalho, a reticência nas últimas coisas pendentes no ano da revolução — ano que acaba em vinte e dois de dezembro, espécie de ano-novo-feziano; por falta de gentílico registrado, dou-me ares de inventá-lo, assim como à efeméride.
E a paixão. Que obstina e arrefece, mas não definha. E eu mato a esperança a cada dia, diligente e com o apoio de amigos e amigas, porque não há mesmo quem arrazoe a ponto de me convencer que há jeito.
Sendo sério, eu deveria dizer que não há quem defenda esse amor de raposa e galinha. Mesmo os delirantes de desenhos animados. Mesmo os que me conhecem de antanho e de cor. Cor, cuore, core, miocárdio.
E a falta de ar que vem aporrinhar quando eu me distraio só o faz quando me distraio.
E as próximas coisas na lista de consertos e emendas e atalhos. E a arte de permanecer calado, difícil arte.
Falavas-me de resoluções de ano-novo, daquele seu jeito apaixonado e peculiarmente articulado, vítima do berço e da geração. Falavas-me e eu me embevecia com a fome e com a vida louçã que derramas, com o tanto que sei que perco, que perdes, me entristecia.
Eu queria nunca mais te ver, você percebe o tamanho desse amor?

20061116

Deixa Barros dizer

Há quem recite a palavra ao ponto de osso, de oco;
ao ponto de ninguém e de nuvem.
Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na sarjeta.
Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las pro chão, corrompê-las
até que padeçam de mim e me sujem de branco.
Sonho exercer com elas ofício de criado:
usá-las como quem usa brincos.

D.

D.
Quis D. que eu lhe abrisse as portas. As portas todas, vamos, que eu não tenho o dia todo.
Causou péssima impressão, D., desde sempre. Deixou-me sempre com olhar de soslaio, cara de nojinho e cansaço de babá.
Quebrou minhas pernas, D., com paciência monástica de quem não sabe bem o que está fazendo. E continua fazendo. E faz mais um pouco a cada dia.
É D., e não se pode furtar a ser.
Quis D. que eu lhe explicasse a dor do mundo, o amor como second language. Sorveu-me com sorrisos largos e olhares de lêmure-que-caiu-da-mudança.
Tem casa aqui, sempre, sempre, semper.
Tem as portas abertas, D., e sabe que um dia eu cobro o "siviço".

20061115

Extenuado

Extenuado
Hirto.
Saudoso.
Acabrunhado.
Contrariado.
Prostrado.
Sobrepujado.
Roto.
Enlevado.

Sim, eu trabalho no feriado.

20061113

Recesso

Recesso
Troxe dona Depressão consigo e não fez a fineza de perguntar se podia. Essas coisas incomodam mais que a impressão de promíscuo que, quis você, o porteiro aludiu a mim.
Deixou-me às 4h naquele estadinho. Torpor. Essa saudade é malsã. Essa decepção comigo mesmo é coisa perniciosa de se meter por frestas de tacos e deixar passar o mundo, que eu não estou nem aí para a dona da curvinha do sorriso de fazer dobra espacial.
Vidinha de fita de Möebius.
Levou mais do que deixei e não teve a gentileza de perguntar se podia. Em fato, sequer me deixou ver o que levava, com seus truqezinhos baratos de prestidigitadora — dedos e mãos e sorrisos e argumento e olhares e hálito estupefaciente.
Too close for comfort.
Amanhã o dia vai se arrastar e me arrastar junto. E não sairemos do lugar. O momento espaço-temporal da singularidade do caralho a quatro. O zero Kelvin.
Emputecido. E contido. Somatizo, deve ser.
Sei que não durmo mais.

20061109

Pessoal

Pessoal
Não sei bem mais o que pensar.
Não sei se devo.
Não sei mais como agir ou o que dizer.
Já não sei mais o que escrever.
Temo não saber mais como me mover.
Não sei mais quando, onde; e os porquês se perderam no azul.
Não sei mais se.
Sentir? Sinta quem lê.

20061108

Belas adormecidas

Kawabata não me deixa em paz.
E eu preciso de metáforas para sobreviver.
Bem o sabes: já não é mais questão de orgulho.

Extrato

Extrato
Não resta mais que minha sem-vergonhice.
Dedos são criaturas fugidias que me ferem a cada vez. Arranham e me puxam sempre mais perto, cada volta mais fundo, em sua longilineidade. E roçam e têm a mim, absorto e indefeso.
Crispados.
Braços sempre estão em todos os lugares e se me fogem, procurando um ar qualquer que lhes devolva a precisão. Espasmódicos e tensos, a cada investida se recolhem a me procurar, tímidos e famintos.
Lassos.
Ombros se alargam na pequenez da anatomia delicada de frescor e inocência simulada. São alvos fáceis e submissos nesse tango de suores e salivares. Contraem-se. Contraem-se mais e deixam à vista as forças femininas que movem planetas, que erguem povos e os levam, exaustos ao conforto póstumo.
Lívidos.

Repousamos por pequenos átimos de reconhecimento caramelado, de sorrisos imprecisos. Amar assim, quiçá até que venha a realidade e seu peso indecente. Mais indecente que esses suspiros que já não me abandonam.

20061107

Ajuda

Ajuda
Cuida que não tenhamos mais nada. Nada a dizer, nada a saber.
Tenha pudores de não sobrar desejo ou desgravo, que já se faz a madrugada besta de lua quase cheia escondida atrás de nuvens.
Viu o que eu fiz hoje? Você tira de mim o que há de pior e o que há de melhor.
Guarda que não saibamos amanhã de nada, que vai esse erro contar aos outros que reincidimos desde que não queiramos.
Ouço The Wagon por viéses de shuffle. E sabes que eu diria de Jung.
Minta mais uma vez para mim, mas faça-o com a convicção benfazeja de senhorinha — eu me travisto de Zumbi. O de Palmares. Fujo, sedicio, revoluciono até que alguém venha e me mate. E mate-me no Estácio, bien sûr.
Desisti de lutar.
Até amanhã, ao menos.
Stay sweet.

20061106

C.

C.
C. teve sonhos que necessitavam de coragem. C. sempre teve coragem.
Da última vez que encontrei C., a coragem estava lá, mas soterrada por uma poeira de mediocridade alienígena, de vidinha de supermercado "sofisticada". Sim, na acepção original.
C. nunca foi pequena. C. nunca foi menor. C. nunca se deixou emburrecer. C. foi role model.
C. parece ter cansado. Alguma coisa quebrou, alguma coisa partiu. Alguma coisa me diz que C. está prestes a morrer de novo (sim, C. já morreu uma vez). Meu consolo é que C. tem essa coisa de poder morrer e voltar chutando o balde.
C. tem olhos cansados, olhos pidonchos. Olhos verdes belíssimos.
Se eu acreditasse em alguma coisa, estaria rezando por C.
Quando C. morrer novamente, tenho a impressão que ela me procura. Ela sabe que já viro especialista em funerais.
Auguri, C.

20061105

Desoxirribonucleico

Desoxirribonucleico
Vamos fugir.
Pare de perceber quando estou com outra; pare de me ligar e de mandar mensagens quando eu desligo o celular de propósito e comece a responder.
Diálogo.
(não queira saber o que você não quer saber, ademais)
Eu paro de encher sua bola e você para de me testar. Que tal?
Mas vamos, vamos fugir. Para um lugar onde você não me conheça e eu não me conheça.
Turnos de conversação: a gente para de tentar advinhar o que o outro quer falar. O que o outro quer dizer. A gente ouve. E diz.
Vamos fugir. Já.

20061104

Improvável

Improvável
Olhos de derramar.
Peso de mordidelas.
Um cheiro de perder.
Espessura de azul.
Pintas de descalabro.
Voz de duas da manhã.
Gosto de jazz.
Furinhos de inocência.
Cabelos de bolo-de-fubá.
Um sorriso de cinco quilômetros de largura com curvinhas buriladas em feitio de salvação.
Medos de mentira.
Umbigo de praias.
Amanhecer de piercing e tattoo.
Pés de almíscar.
Vontades de indizer.
Pernas de arrepio.
Mover de eternidade.
Armadilha.

It's that heat

Get mellow.

20061103

B.

B.
B. tem muita coisa embaixo do tapete. Mas B. não tem mais esqueletos no armário. Breve, muito breve, mais breve que gostaríamos, B. não terá armário sequer.
Corre, B., o mundo que chama a todos, mas lhe fazemos ouvidos moucos. Não eu, menos B., que sabe (ou soube) andar, flanar e saltar.
Com todo o medo do mundo, mais os seus (e alguns dos meus), B. não se deixará furtar. Abocanhou o que se lhe foi oferecido e não pode mais voltar.
Mas, nessa pressa toda de saber alhures, B. não esquece de mim, que pouco fiz, que tanto quis. B. me toca e me faz seu sempre: mesmo distante.
Mesmo involuntariamente.
B. não está sozinha. Não lhe é mais permitido.

Sushi de los muertos

Agradecemos à companhia e aos impudicos e impublicáveis. O sushi de los muertos não teve doce de caveira, mas teve bruschetas e sorvete. E eu não posso negar a plurilidade das minhas origens.
Saltimbancos do blecaute, nada tínhamos de Trapalhões, embora viessem à baila a Gal e a Bethânea, em personificações e esconjuros.
Foot massage, atentem, é para poucos. Ou poucas.
E gozem as moças da baladinha, que este recolhe-se para a labuta, invejoso dos tempos livres e da rebolada que, perdeste, Mari, mostro outrora.
Yes, I can be mean.
E devo dizer que a cena é foda. Been there, done that, mas é foda. Plurisemanticamente.
Haverá outras.

20061102

Sintético

Sintético
Minha faxineira achou seu brinco.
Eu me perdi na curvinha. Aquela, do canto da boca.

Minha faxineira achou seu anel.
Eu me perdi nas covinhas. Aquelas nas costas.

20061101

Estupefaciente

Estupefaciente
Libar é o que nos resta, pois não?
E sorvo todas as suas tentativas de sedução (e de sedição). E brindo. Aos amigos ausentes, aos amores perdidos…
Claro que já é menos divertido e menos saboroso, a cada dia, posto que envelheço, míngua a ingenuidade, escapando com o viço.
Mas então, o elogio, o sorriso, o olhar. O roçar. O sorvete, o chocolate, e a pergunta difícil, ainda sem resposta. O bloqueio da porta. A intimada, o SMS, as risadas tão arreganhadas que fizeram levantar os cães-das-pradarias. O silêncio no final de semana.
Ledo, ainda que involuntariamente. E deprimido, horas depois.
Are you looking for the mother load?
No, my child, I'm diggin' for fire.