20061031

Excessivo

Excessivo
Corre atrás do próprio rabo idiota não tem tédio chafurda na lama que produz com a baba caindo por terra bem como a própria vontade e as determinações todas de vida tão efêmera e paga regiamente pelas cagadas que se acumulam não perca a esperança amicíssima que você não hesitou em concordar com o pobre diabo que essas coisas não são questão de escolha e até que eu fui ao mesmo show que você perdeu por outros motivos e eu queria você lá porque você saberia gozar e acho que até mesmo a desgraçada em questão fruiria algo mais do que eu gostaria de admitir para manter a distância e a impossibilidade amadurecer e se você prestar atenção verá que eu fiz cara de mau e calei-me todo sério e fleugmático para ela me destruir de novo tentando falar como mano e eu tendo de dar aulas de perifês enquanto ela me seduzia com risadas deliciosas e me deixava quase com vontade de desmarcar o dia de los muertos mas não vou não vou porque ainda me sobrou um mínimo de auto-respeito e um mínimo de consideração por você carina mia e eu já te dei meu corpo e minha alegria e agora falta estancar meu sangue porque ele ferve todo dia e não me resta muito não mas é o que me resta e hoje a separação se dá amigável e não sem arrependimentos bilaterais e calados mas eu nem ligo mais porque tenho meu próprio inferno para cuidar e cuido que seja melhor esse ano aí com sete no final porque a gente tem de inventar coisinhas de se agarrar galhos ou ramos sempre que a gente se joga no abismo mas não quer realmente morrer.
C'est là que j'existe.

20061030

Hard groove

Tim festival (que Ana chama de Free Jazz, e eu faço coro). Stefano Bollani, Ahmad Jamal, Herbie Hancock, Roy Hardgrove e Charlie Haden.
O mais próximo do paraíso a que se pode chegar.

Recomeço

Recomeço
Mais uma vez é hora de me dar ares. Jogar a vida fora e brincar de fazer outra. Do zero.
Dal capo: 3, 4… 1, 2, 3…
Quer vir junto? Deve ser divertido. Tirando meu mau humor, minhas vicissitudes sempre são um espetáculo à parte. E a vivissecação é sempre a melhor parte: a lista dos erros, as promessas de vida nova, os funerais.
Sempre os há, os funerais.
Queimemos navios e amores e cartas e fotos e bonecas vudu e todas essas coisas mal-resolvidas que só atravancam a passagem e incomodam a visita.
Juro que faço piadas, piadas aplenty, do tipo mais ácido, as mais cruéis.
Crudelíssima foi a moça, mas só porque eu deixei. E não é verdade que sou o único a culpar? No one else to blame. Guilty as charged.
Hora de fazer a barba. Talvez deixar o cabelo crescer (já fazem décadas). E de parar de escrever textos ruins.

20061029

Menoscabo

Menoscabo
Treat me wrong honey, I don't care
You never liked me much anyway


A cada vez, e hoje não foi diferente, eu percebo o quanto isso tudo é errado e os porquês de não haver possibilidade infinitesimal de "dar certo".
Talvez meu problema seja o delay nas conexões sinápticas. O milissegundo entre a decisão de dizer não e o sim, todo pimpão, voltando, com minha voz, aos meus ouvidos (acompanhado do tapa mental na testa amarela). Yes, you did it again.
Hoje não foi diferente.

You drove me up and down the street
You used me up like gasoline


Lembra de eu ter te dito que não ia mais te deixar me machucar? Pois é. Acho que o retardamento nas sinapses teve seqüela: perda de memória. É nessas horas que o behaviourismo começa a fazer sentido. Ao menos funciona como anestésico enquanto não sabemos os reais motivos para tanta idiotice.
(E o que mais me espanta foi o relaxamento e a reflexão pós-coito, desaguando naquela segurança tranqüila do tipo "você pode muito bem ir à merda que eu não ligo a mínima". Do tipo, "já não me importo com o que possa acontecer ou deixar de acontecer". Do tipo, "não a qualquer preço". E era bem o momento de parar de concluir, que a coisa ia mesmo enternecer gradativamente.)
Mas esse SMS, essa ligação, esse jantar, tiveram requintes de crueldade sutil, com toda a segurança de quem não tem dúvidas sobre who's on charge here.

That's the reason I have to stay away from Claire

20061028

Não alimente o animal

Animal
Jogue o amendoim para o macaquinho.
Jogue pedacinhos de atenção.
O macaquinho adora restos de comiseração disfarçados de frutas frescas.
O macaquinho faz macaquices, porque, bem, é o que o macaquinho sabe fazer.
Fica, depois, pensativo e deprimido o macaquinho feio, contando as casquinhas de amendoins já meio passados.
E com aquele gosto ruim na boca.
Dance, little monkey.
Dance.

20061027

Mentira

Mentira
É só questão de tempo. Você encontra alguém mais bonito, mais alto, mais rico, mais novo, mais frívolo, mais fácil.
Não demora muito e eu encontro alguém mais feia, mais baixa, mais pobre, mais velha, mais arrogante, mais fácil.
Logo, logo, você se dá conta do que perdeu. Ou não.
Eu já me dei conta do que me livrei. E do que perdi.
É logo ali, o fim.
Não tarda, a decepção.
E vamos assim, Vanilla, fadados a nos perder, destinados a não concluir.
Eu desisto um pouco a cada dia, sabia? É um hercúleo esforço de dizer que estão verdes (as uvas), que não vale a pena, que não merece, você, tudo o que há aqui.
Eu preciso me convencer de qualquer coisa, porque essa monstruosidade fica cutucando a cada precisos sete segundos. E sete segundos, eu já lhe disse uma volta, é quase insanidade comprovada.
Eu preciso de uma mentira bem crível. De preferência azul.

20061026

Interlúdio

Interlúdio
É post-recado, por preguiça de se fazer post-foda-se.
Toda essa série de posts acompanhados de imagens, fotos tiradas por este vosso criado, é tentativa de literatura, ou sub-literatura. Textelhos, se lhe agrada. Por serem assim, todos eles, parte de uma grande coleção de mentiras criadas em cima de observações sinestésicas, à guisa de diário, não têm intenções outras que entreter.
A mim, mormente.
E intenção terapêutica (tentativa). Exorcista, melhor colocando.
Pois que assim procedam à leitura, sem que busquem nomes e faces e significados exclusivos, posto que são todos um só: o da minha contrição e da minha purga.
As conclusões cabíveis, destarte, devem todas ser de cunho crítico-literário, e devem ser acompanhadas sempre de carta de recomendação, carta de apresentação, curriculum vitæ, autorização do pai ou responsável. E abundantes carimbos. Escritas de próprio punho em papel pautado, amarelo, com margem não inferior a 3cm. Munam-se de lápis número dois e borracha macia e dirijam-se ao guichê 32-b, em qualquer terceira quarta-feira de abril, desde que não chova.
Mas posso poupar-lhes o trabalho e afirmar: it sucks. Big time.
Ou me liguem. E paguem o café. Eu discorro sobre minha premência de escrever, minha compulsão em fotografar e por que eu escolhi mentir no blog e falar a verdade na terapia e na vida.
Ou vão ler Cortázar, que vocês ganham mais.

20061025

Probabilidades (e tão só)

Probabilidades
Se você não é basto o suficiente, não prossiga. Volte-se sobre seus calcanhares, dê de ombros e me despreze a partir de hoje — as coisas só ficam piores adiante.
A concisão se evadiu há tempos, junto do comedimento e da percepção espaço-temporal newtoniana. Agora, caríssimos, é um pega-para-capar-anti-partículas de dar gosto.
Senão, vejamos, sob uma perspectiva heisenberguiana de aplicação limitada de qualquer pensamento malformado que possa ver a luz de tubo de raios catódicos (ou plasma, vai saber), a que ponto chegamos.
Eu não digo coisa que preste há dias. E há quem diga que são semanas. E há ainda o uso do "há" de maneiras várias, mas sempre a mesma. E há os sorvetes de meio-de-tarde, jogando com minha pequena experiência de amor schröedingueriano. Koan empírico.
Eu não faço nada digno de nota. Eu não tenho nota, notação ou notícia para lhe dar, ávida amiga. Eu tenho intenções — e elas nem sempre são as melhores possíveis.
Deverias, destarte, sumir da minha vista com tuas perfeições euclidianas, que já não me bastam, expandido e exangüe, para o pequeno-almoço. Sou o monstro devorador de incautas súcubas, de Lucrécias de botequim.
Passo ao largo de Tiro e de Nicósia, dobro à esquerda em Albuquerque (como nos ensinou, memória coletiva, o coelho), sigo em busca da chaminha que se queria Alexandria, sabendo ser bruxuleante ilusão criada em cativeiro.
Entrevero. Suicido. Recalcitro. Iminento e chafurdo. Só para te impressionar. Ou causar asco. O que vier primeiro.
Dou boas-noites e me recolho ao convés de sotavento, que a quarta segue o curso hebdomadário irrefreável, as garrafas se acumulam e minha terapeuta diz que eu deveria mesmo era tocar um tango.

20061024

A.

A.
A. corre atrás de toda a forma diferente de fortuna que se lhe apresenta pela frente. Trevos, luzes, pedaços de bons-conselhos. A. quer sempre que sejam melhores os dias. Briga para que sejam melhores os humores e as caras que desfilam desagravos.
A. acreditava.
A. perdeu toda a esperança naquele fim-de-mundo-de-ano-de-vida, destino cunhado em ourivesaria, detalhes impossíveis, minúcias subatômicas de desdém.
Azuis lhe percorriam entranhas quando A. deu-se conta da queda que, para além de iminente, já se dava pela metade percorrida de avanço inequívoco. Caía com a graça de dez vinténs. E já não se importava.
Nove vidas, doze lapsos. Um parsec. E todo o tempo do mundo.
Eu olho A. e a vejo brincar girassóis de porta em porta, caçando libélulas e destronando certezas. E ela sempre será A. Aquela que nunca de mim guardou ressalva; aquela que não me conheceu.
Salve, A.
Godspeed.

20061023

Descritivo

Descritivo
Cronologicamente invertido.
Café e mais café. Jaquetas jeans, sorrisos fartos, sorrisos constrangidos. Mudanças rápidas de assunto, toque de celular e fotos.
Seven-six-two millimeter, full metal jacket.
Passes errados, perguntas erradas, respotas corretas. Giros em cima de joelhos, quase todos danificados. Olhos escuros e profundos. Miríades de olhos, intenções veladas.
Intenções claras, fatos. Frescura de primeira vez, de medos jogados nenhures. De intensidade descoberta em túmulos de quereres. Retrato de impossibilidade feito perfeição de não-saber. Tentativa e erro.
Mentiras e dissimulações e tantas são as coisas que aprendemos que nos esquecemos de pensar.

20061022

Pluriforme

Pluriforme
Dou-me ao mundo baço, cansado e folgazão.
Incrédulo.

20061020

Sortie

Sortie
Definições é do que você precisa. Porque é do que, fundamentalmente, todo mundo precisa. Precisa, perceba, não significa quer.
Alguma coisa próxima a "certeza", que seja falsa, mas que seja algo confiável, para tocar a vida em alguma direção. Essa história de método intuitivo funciona bem apenas para algumas coisas, e apenas durante um certo tempo. Até que o fiscal bate na porta e tudo muda. E você precisa escolher com um pouco mais de conhecimento de causas. Ou, já que aqui estamos, de efeitos.
É, eu sei que sou o nêmese da causalidade, o bastião da incerteza, o detrator do efeito borboleta, o sequaz do universo quanticizado. E, no entanto, há que se determinar algumas possibilidades e elegê-las, er... Prováveis. Senão, querida, você não anda.
Lembra do Borges e do jardín de senderos que se bifurcan? É por aí. Você tem de dar mais aquele passo.
Um passinho à frente, aí, por favor?
É claro que você também precisa de alternativas, e elas estarão sempre abertas, fique tranqüila. Mas não dá mais para ficar parada, e isso você já me disse — disse com os olhos, e com aquela retorcida de canto de boca tão característica quanto o brilhinho dos seus olhos em horas de desespero contido que me faz querer te pegar pela mão e dizer pra confiar em mim, que vamos saltar no escuro, sim, mas é só porque a gente pode.
Mas te faltam coragem e confiança e a abnegação e, admitamos, fé. Por que você se prende a essas certezas ilusórias e é incapaz de cunhar novas. Talvez fosse a hora de parares de embalsamar tuas recordações e perderes o que levas nos bolsos.
Eu? Eu sou o Leão da Montanha: mantenho minhas saídas estratégicas desobstruídas. E o celular desligado, sempre que possível.

20061019

Alumbramento

Alumbramento
Porque eu sou uma farsa.
Chovia e fazia frio, o que lhe deixava de bom humor; um bom humor insuportável para todos os que amaldiçoavam a chuva. Ou o frio. Ou seu bom humor.
Saiu não querendo sair, beijou não querendo beijar. Calou todas as frases ensaiadas como sempre calara todas as frases ensaiadas mas, desta feita, calou todas as outras frases.
Deixou-se levar sem pensar em conseqüências — achou que a fórmula para não sentir culpa era não ter controle sobre a situação. Durou pouco, a inconseqüência. Sentiu culpa antes mesmo de acender o cigarro.
De uma só vez pensou em todas as pendências, todas as pequenas falhas, todas as to-do lists, todas as sessões de terapia, todas as conversas com Vanilla. Foi um átimo de esboroamento do cerumano, uma catástrofe de proporções consideráveis.
Foi remendando tudo sem sequer olhar para onde estava atirando. Começou a pagar contas, ligar e mandar e-mails, lavar a louça e separar o monturo para a reciclagem. Virou para a Meca, cortou as unhas e fez a barba. E fez a mala.
E fez ato de contrição.
Rolou na cama, dormitou um total de 47 minutos. Tomou banho e chegou no trabalho antes de todo mundo. Prometeu a si mesmo mudar e deixar de ser besta, e se deixar fazer as cagadas homéricas às quais se negou por décadas.
Queimou o Ortopé em praça pública e colocou o discurso em frente à pira no YouTube, com link no profile do Orkut.
Percebeu suas contradições e perdeu o rumo. Travou durante segundos, sem saber se acendia o cigarro, se pulava da laje ou se pedia férias. Não fez nenhum dos três: foi burocratizar mais um pouco e salvar o mundo.
Ouviu trombetas e tirou o fone. Viu a luz e tirou os óculos escuros. Checou a agenda e viu que estava atrasado.
Saiu na chuva, abençoando o frio, a insônia, o desprezo, a incompreensão. Deu graças pela confusão e pela incompetência, pela falta de definição e pelo pouco tempo que lhe resta.
Naquele frio, deixou-se levar pelas opiniões alheias, alheio a tudo que não era o tempo.
Pegou-se sorrindo.
E não tentou mais entender.

20061018

Decepções

Decepções
Eu queria saber por que você faz essas coisas com você. O que ganha se rebaixando desse jeito? Tá, eu sei que não foi nada, que, inclusive, já não é nada nem nunca foi nada. Mas você me acordou na madrugada de domingo!
E agora essa outra, que era só brincadeira e não sei mais o quê. Mas não era, né? Porque a fé era minha e eu que me iluda o quanto quiser: você não é a projeção da mulher que só existe na minha cabeça. Cabeça dura. Não é maravilhoso quando a gente se pega idealizando amigos, igual as pessoas fazem com namorados e consortes de todo tipo?
E a terceira, que é para eu me recolher à minha ignorância sobre meandros e leitmotivs e métodos enviesados de corações e glândulas pineais.
Mas eu não tenho o direito de me decepcionar com ninguém que não eu mesmo, certo? Esse tanto eu já aprendi.
Mas e o que dizer da moça que não merece o que está passando? E passando está.
E a gente faz o que pode, um pouco menos, nessa divisão entre o que pode e o que quer e o que poderia, mas não faz. E por que não faz? Sei lá. Vai que amanhã se faz?
No fundo, no fundo, eu jogo a toalha e faço. E se não for o certo, se for mal-interpretado ou se for ignorado, eu tentei. Tentei ajudar. Tentei consertar, ou facilitar. Tentei aliviar.
Tentei contar aquela piada, mas eu disse que não sabia contar piadas.
Tea with me, diria o FG — I book your face.
Pode contar, ó. Estou na área, Mesclada (Gallega, Surtada...)
Estou na área, moça. Moças.
No strings attached.
No questions asked.

20061017

Tempus fugit

Tempus fugit
Eu quase acredito nessa história de boiar. Se eu não achasse que estamos perdendo tempo demais.
Eu quase acredito na promessa sempiterna de que tudo vai dar certo, se as merdas não fossem acontencendo com as pessoas que me são caras em base constante e com aparência de fonte inesgotável.
A forma, ou fórmula, tão simples e tão elegante da simplicidade na busca da situação tranqüila parece não mais funcionar. A conclusão a que chegamos, em longas conversas regadas a todo tipo de beberagens, é a mesma, não importa o estado das bexigas: algumas pessoas não querem ser felizes. Lutam mesmo contra.
E vamos, de mesa em mesa, trocando dias por noites e CPFs e cores-de-olhos, e voltando ao assunto que me deixa abobalhado. Porque não me parece possível que essas caríssimas tenham um lado tão absurdamente feio (tanto quanto escondido) à espreita de incautos mocinhos. Ou mocinhas.
Não. Qualquer uma delas seria garantia de décadas de vida compartilhada, de vidas de fruição e, no entanto, nenhuma delas é aquela. Aquela que me serviria. E é quando, juntos, nos damos conta de que nós também estamos ali, com a possibilidade à mão e, de comum acordo, a rejeitamos; que percebemos que sim, fugimos também, medrosos, da felicidade folhetinesca.
Por outros motivos, claro, ou quiçá os mesmos. Não nos é dado saber.
Um preconceitozinho aqui. Uma incompreensão ali, uma palavra de deixar-estar, um muxoxo, um olhar inconveniente. Um costume à guisa de amizade, um conforto, um medo de estragar tudo.
Volto a dizer: acordadas as partes, celebrando a impossibilidade que não deixa mágoas ou issues. Parece, ao fim do dia, da noite, da cerveja, da semana, uma coisa muito bem-resolvida.
Mas não ajuda o fato dessa grosa de infelizes que mereciam mais. E que não se-lhes dão mais.
E eu não posso dar-lhes mais.
Ao menos, não agora.

Relativizar é o que me sobra. Aprender a olhar o mundo e não o mapa. Boiar.

20061015

Regeneração

Regeneração
Eu me perco um pouco a cada dia. Uma nesga por vez. Um tiquinho a cada conversa.
Um pedaço de um bom pedaço a cada beijo.
Por isso aprendi a regenerar.
Por isso cultivo a arte da abnegação.
Os pedaços que perco a cada vez não são substituíveis e, portanto, há que se inventar novas partes e funções para essas partes. A última foi asa de chaleira, bem ali, onde ficava o pâncreas. E eu ainda me pergunto por que motivo quiseram o pâncreas. Metade das pessoas que levaram pâncreas não sabem para que ele serve. Servia.
Asa de chaleira no abdômem. Poderia servir de apoio para alguma coisa. Vou pensar.
O treze de outubro levou parte da minha fleugma, que já está acabando.
A chuva que começou a cair ameaça levar uma das covinhas do rosto. Tentei enganar dizendo que não era covinha, mas ruga. Vamos ver se cola.
A mocinha, hoje, levou um nadica de modéstia, uma risada perfeita, um conselho equivocado, um fio de bigode, um passo de dança. Um azul quase perfeito.
Agora fico aqui, concentrado para fazer crescer um olhar-de-três-e-meia e colocar entre a dúvida e a malícia.

Desassossego

Desassossego
Vocês me tiram do banho, da letargia, do tédio. Vocês me tiram de casa, do trabalho, acabam com minha concentração. Vocês me tiram o sono, o chão, o rebolado. Vocês me tiram a vontade de me enfurnar, a preguiça de ver pessoas, a carne do congelador. Vocês me tiram a razão, as certezas, a raiva. Vocês me tiram da mediocridade, da mesmice, do convencional. Vocês me tiram do sério, do caminho, da virtude. Vocês me tiram do pedestal, da lama, da cama. Vocês me tiram da reunião, do relatório, do almoço. Vocês me tiram da diversão, da contemplação, da aula. Vocês me tiram a roupa, a nóia, a noção.
Metiram é cacofônico paporra.
E eu amo vocês.

20061014

Seis anos

Seis anos
Por que raios você me despreza quando eu te trato bem?
Por que diabos você corre atrás quando eu te desprezo?
Por que cargas d'água você me liga quando eu acho que você vai ficar puta?
Por que infernos você me manda SMSes do nada mas nunca responde os que eu mando?
Por que caracos você diz não, mas corresponde?
Por que, deuses, você diz que não sente nada e treme quando lhe toco as coxas?
Por que caralhos você me olha desse jeito, provocando?
Por que, pray tell, você some e odeia quando eu sumo?
Por que demônios você me persegue?

Tenho seis anos de novo: puquê? Puquê? Puquê?

20061013

Cute. Cute 12.

Cute
Passou o Vanilla Day com aniversário de Mikki-impossible-hair-and-smiles e um What not to wear particular com a já citada aniversariante e Bee e Mari. What not to wear meets the L-Word e o dia inteiro de crochê em inglês — começo realmente a acreditar no papo todo da cosmopolitanidade de São Paulo.
Isso tudo depois de ter jogado.
Mas é claro que eu liguei para as duas outras aniversariantes e, por coerência, poderia ter rezado também: avemariacheiadegraçafelizaniversáriodonamaria. Algo por aí.
Nah.
Eu reclamo de barriga cheia, no caso literalmente. E ainda tive de ouvir que, depois de tudo que comemos eu poderia comprar calças tamanho 42.
Gee. Gee is not a four-letter-word, capeesh?
Koan is, though.

Mas sabe que quase caracoleio, mesmo sabendo que eu comprei aquele sorriso e que eu paguei regiamente por aquele olhar? Davvero. Ah, não vá você achando que ela vende o corpo da mesma maneira como vendo eu o cérebro. É mais um comércio de, coloquemos assim, simpatia.
Ao menos é um jogo novo. Quem sabe eu não volto a ter sete anos?

20061012

Caracol

Retirada
Noite boa, terminando, como acabam as coisas boas, sempre. Mas ficam, ficam; fica, fica, pôxa.
Abiammo parlato italiano per una ora, più. Non stà male.
Conheci Carol. Carol Caracol.
'Nuff said.
(ok, more later)

20061011

Retirada

Retirada
Taí, fiz o que pedia a torcida: bati em retirada. Fui lamber minhas feridas, dormir e me preparar para a peleja.
Só não consigo dormir. Minhas feridas saben a rayos. E a peleja não vai me esperar.
E minha consciência reclama seu quinhão. Vai que está o mundo errado e minha teimosia certa?
Vai que eu deixei passar a chance?
Amanhã a gente sabe (embora eu ache que não).

20061010

Errante

Errante
Naquele dia — noite, para ser mais preciso —, ele resolveu andar. Saíra tarde do trabalho, trabalho estressante, desgastado e desgostoso. Apesar do avançado do horário, e tendo já perdido o compromisso com a amiga de orgias gastronômicas e bobagentas, o trânsito não ajudava e os ônibus pareciam ter desaparecido.
Foi andando.
Quis, por força de hábito, seguir caminhos diferentes. Ziguezagueou em direção ao apartamento que o esperava vazio. Ouvia música para pensar melhor.
Não sabe bem quando, resolveu tomar o sentido oposto. Pausou o som e deixou-se ir, palmilhando a cidade que fremia com vidas de prateleiras. Observava e não se via em lugar algum. Não se via com ninguém.
As pessoas com quem ele gostaria de estar não mereciam ser incomodadas por um vagante perdido e ensimesmado: o que teria ele a lhes dizer? O de sempre. Suas frustrações que, apesar de trágicas e estranhas, que apesar de verdadeiras (ainda que nunca verossimilhantes), apesar de divertentes, eram ainda as mesmas já recontadas tantas vezes. Literatura de quinta.
Andou até precisar hidratar-se e percebeu que estava próximo do primeiro prédio em que morou ao sair da casa de seus pais. Olhou para cima e não pôde apontar o apartamento que ocupara. Tomou outro desvio e foi procurar o próximo lugar em que morou.
Não era perto, mas foi assim mesmo. Dois apartamentos no mesmo prédio. Olhou os arredores para entender as mudanças. Entendeu parcialmente suas mudanças. Foi buscar seus outros endereços, aqueles na mesma cidade — somente por não ser possível andar o chão do Atlântico.
Brooklin Novo, Paraíso, Paraíso, Jardins, Jardins, Cidade Monções, Paraíso, Perdizes, Pinheiros, Pinheiros, Pinheiros, Cerqueira César. Lua.
Foi buscar endereços das mulheres com quem morou, com quem dividiu mais que contas e camas. Foi em busca dos erros, em busca de respostas. Não encontrou nada. Chegou a Avallon quando já nascia o sol. Entrou sob o olhar descrente do porteiro, subiu, banhou-se e vestiu-se para ir ao trabalho.
Quando foi mesmo que se perdeu?

20061009

SMSeando Kawabata 3

"If I put sugar in my pocket and walk through the town, maybe some white daydreams will drift into my mind."

se vc continuar com açúcar no bolso, vai arranjar muitas formigas de coração seco

SMSeando Kawabata 2

"If I put sugar in my pocket and walk through the town, maybe some white daydreams will drift into my mind."

Blown away means: a) windy b) astounded c) gone

I want some sugar in my bowl.

Ya aint fooling.

SMSeando Kawabata 1

"If I put sugar in my pocket and walk through the town, maybe some white daydreams will drift into my mind."

Let me know if it works... ;-)

Paixão

Paixão
Ela vai te machucar muito, e não há nada que vocês possam fazer. Nem você, nem ela.
Ela tem o dom de te colocar em situações de merda, situações extremamente doídas pelas quais você nunca passou antes.
Ela lhe entregará fardos insuportáveis que você não pode dividir.
E lhe encantará todo dia. E lhe destruirá a cada noite.
E não há nada que vocês possam fazer.
Ela continuará inescrutável, por mais que você tente decifrá-la. Ou por isso mesmo.
Vocês terão DRs intermináveis, mas não terão um relacionamento de fato.
Ela se entregará o suficiente para que você não escape e o rejeitará o suficiente para que você não queira desistir. Você a deixará intrigada e admirada o suficiente para que reine a confusão. Que ela negará.
E não há nada que vocês possam fazer.
Vocês se farão bem e mal em intensidades improváveis. Agonia e êxtase. Céu e inferno. Sado e maso.
What's love got to do with it?

20061008

They say it's spring

And, in fact, it is.
And it doesn't help a bit.

Diferente

You say Scarlett Johansson. I say Stephanie Leonidas.

Tolerância em falta

Let me be nerd for a minute: que tal uma extensão do Firefox que me permita marcar banners e pop-ups e demais peças como "spam"? Ao menos não me serviriam mais aquele tipo de anúncio e eu não desejaria que seus inventores levassem um tiro no reto.
Pheeno.

Profilo

Profilo
Eu não tenho carro, vendi minha moto, moro em Cerqueira César, mas todo o mundo jura que é Pinheiros.
Tenho mania de hiperbolar e inventar palavras.
Toco sax tenor e clarinete, e música é uma das minhas terapias.
Dizem que sou intenso; que reconheço meus limites, mas não os respeito. E que sou meu maior crítico.
I'm good at being uncomfortable so I can't stop changing all the time.
Minto apenas no blog, porque contar as coisas aqui como elas acontecem, sem floreios, seria chato demais. Não sou Harvey Pekar.
Sou destro, costumo não parar até que alguém peça, cozinho por prazer. Meu e dos outros.
Faço o mapa como pirata que sou, enquanto viajo.
Não escrevo coisa que preste, toco música que ninguém curte, fotografo em busca de uma salvação, amo porque preciso.
Não faço prisioneiros, queimo navios, planejo e jogo os planos fora. Sou o Tolo a cada dia.
Procrastino. Mas não me furto ao salto.
Não confio em mim nunca — sempre vou checar em fontes mais fidedignas. Tenho cacoete de vagabundo.
Não aceito imitações, não sou meramente ilustrativo, deve-se manusear-me com cuidado. Sou abrasivo e inflamável.
Não tenho prenome conhecido.
Erro. Tento sempre corrigir, mas erro.
Peço sempre desculpas e licença, dou bons dias e falo "obrigado". Ligo no dia seguinte.
Tendo a deixar as pessoas confortáveis e os amigos incomodados. Acumulo mais amigos do que me permitiria o tempo. Como com os olhos. Nunca percebos os olhares.
Ainda não aprendi a boiar.
Não sei quando parar.

20061007

Simulacro

Lourenço Mutarelli continua em forma. A caixa de areia, ou: eu era dois em meu quintal, recobra minha fé nos quadrinhos de Mutarelli com o mesmo desconforto de sempre.
O ponto alto é a cena de Tweedledum e Tweedledee aparecendo em um sonho e dizendo: "Venha brincar com a gente… Para sempre… Para todo o sempre…"
O resto você descobre.

Besta

Besta
Leva a vida com cuidado de não se quebrar de vez.
Faz dívidas, procrastina.
Tem dúvidas.
Mete os pés pelas mãos, acha que não pode ficar pior, quebra a cara.
Novamente.
Um, dois, respira, olha para cima, acende outro cigarro, expira.
Faz bolhas de sabão.
Liga para a amiga, conversa com outra pela internet, almoça com mais outra.
E mais outra.
Janta com outra.
Dorme com aqueloutra.
Fala mais do que devia, cala quando não queria, adormece.
Acorda, escreve, fotografa, toca sax, joga handebol, cria, tenta de novo, toca clarinete, é enganado.
Espera, é iludido, desespera, se ilude, tenta ainda mais uma vez.
Trabalha, trabalha, trabalha.
Anda. Toma chuva. Pega ônibus. Paga o táxi.
Ama.
Perde o compromisso, perde a calma, perde a compostura.
Beija na boca.
Trepa.
Se derrete com olhares, faz cara de mau, faz mocinhas darem risada e cozinha.
Dança tango. E se diverte.
Esquece, erra de novo. Olha para trás, não enxerga um palmo à frente do nariz, desaprende a escrever, reluta. Briga. Divorcia.
Apaixona.
Se perde.
Se encanta, fica surpreso, beija na boca, mais uma vez, fica ainda mais confuso.
Encosta a cabeça no travesseiro e pensa na moça que o deixou nesse estadinho.
Até amanhã.

20061006

Parole

Parole
Que deveria, em verdade, ser uma continuação da série "a arte de permanecer calado".
Imagine o cavaleiro de paus, invertido. Alguém em situação delicada, que arriscou muito e que se encontra em situação de perigo. Ou, sob outra óptica, alguém que perdeu o idealismo.
E isto me deixa puto.
Vai ser um longo, longo fim de ano, senhores, essa briga surda com o bífido. Mas tem algumas coisas das quais não abro mão. Minha integridade. Minha liberdade.
E eu já abri mão de tanta coisa…
Desejem-me sorte, crianças, porque eu vou mesmo precisar de alguma. Afinal de contas, meu timing não tem ajudado. E eu tenho essa incapacidade de "lavar as mãos", pilateamente falando.
E devo lembrar-me, toda manhã, de deixar em casa o resquício de ingenuidade. Que ela já não cabe onde ando.
Ah, sim, eu tenho MUITO a perder. E, no final das contas, nada tenho a perder. Fundamentalmente íntegro, eu bem quero. Fundamentalmente imaculado, se conseguir. Não acho que há muito mais a fazer: encostar a cabeça no travesseiro e dormir. Olhar-me no espelho.
Ser.
Vou-me indo, caríssima. Vou-me indo.

20061005

Meias

Meias
As meias estão acabando.
As camisas estão acabando, as meias, as calças, as camisetas. Furadas, puídas, lasseadas, desbotadas. Os cintos não servem mais.
A geladeira volta a parecer um iglu para alugar.
Trapinho.
O que, reza a lenda, é a hora. É propício. É mudança. É outro início.
Avide de changement.
Pode ser.
Pelo menos, com o calor chegando, alguma coisa boa tem de acontecer.
T minus a thousand.
Horas, no máximo.

20061004

Life (Beta)

Beta
É bom para eu ir me tocando aos poucos. Minha visão dos fatos, transmitida ad-nauseam, traz sempre as mesmas respostas, a mesma indignação, as mesmas broncas.
"Cangaro Giallo, emputeço-me com você e sua fraqueza."
E, perceba, essa é a reação, merecida, à minha versão. Não adianta mais a desculpa da guapequice, da falta de vergonha na cara. É mesmo coisa de moleque.
E eu tenho de ouvir, uma vez mais, da cagada que sigo refazendo, em revisitas. Cagada 2.0. Perdi até mesmo o status de beta.
(o que diria a almofada?)
"Ligue, se precisar."
Ligue, se quiser.
Ligue.
E, vejam, crianças que eu tenho passaporte, visto, rota de fuga e o dinheiro da passagem. Traslado e esconderijo. A window of opportunity. E me deixo ficar.
"Vamos ver onde isso vai dar."
É a tônica.
Pago para ver. Mas faço fiado.

20061003

Vanilla

Vanilla
Vanilla arrived as an early bus, or a Xanax spam. You'd notice her but'd let it go and not worry about it. It was another one, a run-of-the-mill face and it came when I couldn't see straight. And so I let it pass.
But Vanilla wasn't your ordinary girl. She passed my most scornful and evil tests. And she scored grades beyond my wildest dreams. She's a fucking devilish woman and so it came to be I was in awe.
I tried to get a grip, but finally she's got what she aimed for: my will. My wildest, lewdest, naughtiest, sweetest desires. She hooked me in such a manner I couldn't think anymore. So I did the only thing an old bastard coulda: I
thought. And, pondering things through, I was trapped.
Inarticulate as I was, I got in love. Yes, I was
that changed. Couldn't face myself inna morning. I even had that cute stare. It was awful.
Now, let me try with my sunglasses on.
Three is a charm, they say, and three was the number I needed to come to my senses and figure Vanilla out. Now I regained my status as the cold bastard and my life is back to where it was before her. Vanilla now seems baffled cuz she can't anticipate my moves anymore. And I even think she's in love.
Then again, it doesn't matter. I've got her where I wanted her. And I'm doomed once more. Being a pirate never seemed so good.

20061002

Ressaca

Ressaca
Amanhã, Lua, acordaremos os dois de ressaca. Ressaca moral, ressaca emocional. Ressaca e confusão e culpa e dúvida. E continuamos não sabendo.

"Eu não deveria ter vindo até aqui."
Por que veio?
"Eu não deveria ter deixado as coisas irem tão longe."
Por que deixou?
"Não é justo com você."
É justo com você?
"Eu deveria ir embora"
E, no entanto, ficou.

Then again, it takes two.
For better or for worse.


E pode deixar o trabalho sujo para mim. Já ando acostumado.

20061001

Prontuário

Prontuário
Andar por aí com 36kg de coração é um pouco mais complicado do que parece.
Senão, vejamos, tal hipercardia é visível, no mais das vezes, e pode por si só definir o sujeito como um freak.
E vai o freak, carregando essa pemba, imprescindível para continuar vivendo, mas que pesa. Pesa tanto quanto incomoda. Aumenta reações, turva a vista e faz o detector de metais dos bancos dispararem.
E ainda aumenta o risco de problemas coronarianos. Exige trabalho, exige esforço, desvia energia de outras funções (algumas vitais) e faz barulho.
Barulho de não deixar dormir à noite.
Após uma pletora de especialistas consultados, a resposta continua a mesma: você não tem muitos anos de vida com esse estado. Melhor escolher uma profissão mais tranqüila, fazer uma dieta mais saudável e esquecer esse negócio de amor.
Amor faz mal, é bem sabido. Mas no seu caso, é de alto risco.
Melhor fumar outro cigarro.