20060930

Origens

Empire of signs (L'Empire des signs) é Barthes escrevendo bem, para variar, e me deixando mais burro.
Uma visão de um país que, por força de invenção, nomearemos Japão. Nada é por acaso, né? Tem um mapinha em algum lugar, enfiado no ouvido esquerdo de algum ornitorrinco alado flutuando no éter de um planeta moribundo do outro lado da galáxia (é, assim próximo). Só que, na eventualidade de você poder vê-lo, quem disse que vai decifrar a "escrita"?
Sempre que trombo um livro desses eu fico mais burro, porque a consciência da minha pequenez aumenta. A ilusão de saber alguma coisa cai. Toda minha mediocridade brilha, dá pulinhos e me estapeia a cara.
Acho que vou pegar um filme de ação.

Sermão

Sermão
Não era eu, não era você. Era alguém com uma visão impossivelmente clara e cruel. Era o mais próximo que uma pessoa pode chegar da imparcialidade. Era um monolito de proporções perfeitas processando informações em nível estrutural, transformando impressões, emoções e linguagem em dados. Dados, percebe?
E eu tinha que ficar lá, ouvindo.
E eu ouvi, até o fim.
E fiquei triste. Triste comigo, triste com você.
Excessivement triste.
Foi pesado.
Depois, eu quis mandar flores e comprar a entrada do teatro. Eu quis escrver o e-mail, cozinhar para você. Arranjar os ingressos do show. Aceitar seus convites e roubar um beijo.
Não mais, né?
E, ainda assim, você não me convence. Eu tive de fazer todo o trabalho sujo.
Foi bom.

20060929

Clockwork

Clockwork
Padrões.
Pense na sua vida como um fractal. Se você consegue, parabéns: sua vida é chata pracaralho. Um padrão é visível não importa o quanto você se afaste ou se aproxime e, pasme, é sempre o mesmo. Imutável, não-dimensional, repetitivo, único, previsível. Você deve ser muito feliz. E bege.
Previsibilidade dever ser uma dádiva. Deve ser algo como incapacidade de apreender novos conceitos. Deve ser como preservar tradições ou não errar. Ou ter certeza.
Espezinho pois, por não ser agraciado. Foi-me proibida ao nascer. Fui marcado com o sigilo (diacronizamos, pois não?) do caos. Eu não sei, simplesmente me é negado saber se amanhã será como hoje ou se será o oposto. Ou qualquer variação intermediária. E minhas reações acompanham esse mote de falta de consistência. Porque eu mudo, mais que o clima em São Paulo.
E nada faz muito sentido, porque não parece possível um afastamento suficiente para enxergar a porra do padrão, que deve haver. Talvez eu deva olhar de perto. Talvez usar twistors, pensar em termos de spin networks e usar de geometria não-comutativa. Afinal, até onde percebo, nem sempre A vezes B é igual a B vezes A.
Talvez eu deva aprender a boiar. E me cobrar menos. E parar de empurrar meus limites sempre que eu acho que não vai dar.
E ela me chama para almoçar, eu despisto. Ela me chama para jantar, eu faço o lacônico. Ela me liga sem propósito, eu sou simpático. Ela invade meus sonhos e eu desabo.
E hoje já é amanhã.

20060928

Prestidigitador

Prestidigitador
Ilusão.
Enganar-se a si mesmo é uma arte biológica. Desviar a atenção do que se vê até que é fácil: um jogo de movimentos rápidos das mãos, colocar o olhar longe de onde a ação realmente acontece. O próprio olhar, no caso.
Entretanto, quando se é o sujeito da ação que se quer esconder, há que se desviar a atenção do tato (do olfato). Só que eu perdi essa aula. E era pré-requisito para o curso de como ignorar sentimentos.
Seria, possivelmente, uma questão de fé. Fé cega, sabemos, é tautologia. Há que se desenvolver uma certa fé naquilo em que se quer acreditar, mesmo quando isso lhe pareça inútil e patético. Hei de me tornar o cristão de Eric, the viking?
Ou simplesmente enganar sinapses com guloseimas?
Personalidade cindida ajudaria hoje. E nos próximos dias.

20060927

Resignação

Resignação
Até que você se dá conta do papelão que anda fazendo.

20060926

Capitulação

Capitulação
O dia passa em velocidade tal que não penso. Uso o cérebro, mas não penso. Argumento, coordeno, ajudo, conto, faço, crio, respondo. Mas não penso.
E por que raios deveria pensar agora, já tão tarde, em vez de dormir?
Porque você me faz assim, reflexivo ao andar no frio, ao fazer o chá, ao tirar a roupa. Não me deixar criar limo, essa é a tônica das minhas mulheres ou, como quis a Tia, eu gosto é de desafio.
I'm only happy when it rains.
Na verdade, quando faz frio e o tempo é besta, como hoje. Como sempre. Com doze talheres ou à mancheias, que o prazer do excesso…
Enfim.
No mais, sempre o mundo querendo me dizer coisas às quais faço ouvidos de mercador. O hexagrama, a música, o sorriso, o arcano, o beijo, os minutos roubados.
It had to be you (só tinha de ser com você).

Me deixa morar nesse azul?

20060925

Auto-análise

Auto-análise
Por que, Lua, ligas assim, no meio da parte divertida, atentando-me os sentidos, quase lamurienta?
Por que, bracinívea, queres-me assim, hirto?
Por que, algoz, horas depois, resolves responder minha mensagem, e falas-me da vida, com meias-palavras, com meios-tons, com reticências até onde não cabem?
Por que, súcuba, me afastas da bem-aventurança da solitude indesejada tanto quanto aguardada?
Porque eu sou sem-vergonha?
OK. Justo.

Pianolina

A verdadeira música do acaso. Já não era sem tempo.
Perco horas…

20060924

A arte de permanecer calado (caso reaberto)

Tudo o que você disser pode e será usado contra você.

Persistência

Persistência
Eu já lancei, por aqui mesmo, que amor é koan.
Não adianta querer achar-lhe o significado, não adianta analisar. Não adianta assumir, a priori, a absurdez do amor, pois isso é emprestar-lhe, fundamentalmente, um significado.
Dizia-me amicíssima em si bemol, crinipulcra, entre cigarros e café: Cangaro Giallo, se amor tivesse lógica, seríamos casados.
Não. O princípio regulador do amor é o mesmo do koan. Sentido, não-sentido, ausência de sentido, ausência de não-sentido. Quase um quadrado semiótico, quereria amicíssima de bolinhas e risquinhos (e protestos).
Há que se ruminar o amor até que os dentes caiam? Sentir, em lugar de procurar sentido — que é chavão, mas se traveste de bom conselho?
Fazer hai-cais. Deixar a instância "amor" encontrar uma forma que se lhe ajuste e não mais que isso (contrariamente a preencher-lhe ou moldar-lhe). E nunca pensar o amor ou tentar, como o faço, descrevê-lo.
Very well then, I contradict myself.
Ainda acho que a saída honrosa é aprender a boiar. Mesmo porque, amor não se aprende, não se sabe e não se quer. Encontrando o Buddha, mate o Buddha.

20060923

Contrição

Contrição
Porque eu sei que eu não tenho do que reclamar. Eu não fui um bom menino, eu não fiz o melhor que pude, eu não tenho justificativas, eu não tentei consertar, eu estou aqui trabalhando, ainda.
Eu não fiz o dever de casa.
Agora eu devo por aí, na praça. Tenho o nome em listas de maus-pagadores; meu crédito é zero. Menor que zero.
Pas de excuses.
Por isso eu não vou poder tirar férias. Vou ter de ralar nos fins de semana, vou ter de virar noites, vou ter de me emendar.
E tentar sanar o mal que fiz.
Por isso eu não tenho a quem culpar e vou ter de ajoelhar no milho, avisar o cliente, contar para meus pais, pedir desculpas, mandar presentes, flores e cartões, lavar pratos, rezar avemarias e painossos e salverainhas.
E tudo isso a pé, porque eu tomei pontos demais na CNH e não tenho sequer o troco do bumba.

Percepção

Percepção
Uma situação deveras inquietante. Você tem idéia do que fez comigo? Fez-me acreditar. Crença. Fé. Esqueceu que eu não acredito na fé, não é mesmo?
Agora eu vago, quase aderno, achando que posso. Achando que sou.
Não, cara olhicerúlea, fizeste mal. Sou uma baixa. Espero que entendas.

O Melville

Porque tem essas vezes que o sujeito se sente um Billy Budd, tirante a parte da bem-parecença.
Uma ode à passividade justificada, um engodo.
E o Melville se acabou no Bartleby e na baleia, é a impressão.

20060916

SMSeando Barros 3

"Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas."

Mestre dos Magos?

SMSeando Barros 2

"Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas."

É. faz cocegas. lembra?

Lembro do sol, e já o quero, sustenido ou de surpresa.

Isso é pra quem precisa de beleza.

Atire a primeira pedra. Só não aceitamos granizo, que a nada sabe.

So distribuo bolhas com aspiracoes nefelibatas

Então sabes por que me apraz beijar-lhe as faces e lamber-lhe as frases…

SMSeando Barros 1

"Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas."

E pra poetinhizar um bichão de estimacinha?

Usa-se um idioleto de atrapalhar significâncias. De falar com as paredes.

Periga elas responderem numa língua morta.

Valem mais que línguas mornas, que estas a nada sabem.

Ainda prefiro as mornas. Deus morto femea língua gelada, língua gelada como nada.

Ah, diz minha gord'alma, que um gelatto agora levantava meu querer.

quinze dias

O tempo sem micro ou internet. Com as coisas no trabalho dando sequer tempo de checar o gmail, a coisa anda assim: internet life in suspension.
Volto com Yasunari Kawabata e o livro de contos The dancing girl of Izu (and other stories). O conto título é lindo. Os outros, inquietantes. Os curtos, hai-contos, que é um termo infame, mas dá a noção de Kawabata. Em "The setting sun":

If I put sugar in my pocket and walk through the town, maybe some white daydreams will drift into my mind.

20060901

Esperança não é voluntária

É um daqueles dias em que você não quer viver. Não, ninguém aqui quer se matar, o que não se quer é o trabalho de viver. Ter de dizer bons-dias. Ter de fingir. Ter de mentir. Tudo isso cansa.
É daquelas noites em que um olhar ou um sorriso bastavam. Um silêncio conivente. Um toque involuntário. Não muito mais.
São dias de mágoas maldirecionadas e amores vãos. De perda de idealismo. E só se tem forças para acender outro cigarro. Mas não de sair para comprar mais cigarros.
A semana toda passa paquidérmica, como se você chafurdasse na mediocridade assente do mundo. E você sequer fez a barba. Barba de sete dias.
Ninguém notou.
É claro que almas caridosas correm ao seu socorro com unhas de coçar o cérebro, beiços de fazer barulho, letras de acalanto, sorrisos doloridos. E sua inefável auto-piedade só deixa perceber o quanto essas nesgas de felicidade são efêmeras.
Você precisa se tratar.
Mas, veja só, o mês lhe trouxe o tratamento, para o qual você, é claro, não estava preparado. Emocionalmente ou financeiramente. É um jogo novo, ao menos, e lhe diverte um tanto. Mas lhe deixa mais cansado e mais pobre. E sem desculpas.
O ano do sejogation. E você se jogou. E se fodeu de verde-e-amarelo — em ano de Copa. O sujeito tem de rir-se da ironia.
O sujeito tem de rir de si mesmo, que é mesmo o que lhe resta. A única saída honrosa. A única terapia possível. E fingir que acredita: acredita que melhora, com o tempo. Que melhora com o tratamento. Que melhora com a idade. Que melhora com a convivência, com o costume, com a vontade que melhore, com a boa-vontade, com a honestidade.
Mas o espelho mente, você descobriu ontem. E você mesmo não é lá muito honesto consigo.
Então o que era mesmo que você queria? Um amor? Um amigo? Um conforto? Um emprego? Uma chance? Uma hora? Um centímetro? Um sonho? Um acaso? Um real? Um golpe de sorte? Um tempo? Uma aventura? Um pão na chapa? Um gol no último minuto? Uma viagem? Uma verdade? Um sonho? Uma noite? Um orgasmo? Uma palavra? Um olhar? Um prêmio? Um feriado? Um elogio? Uma festa? Um cigarro? Um pedala? Uma definição? Um sol sustenido? Uma lua? Um pouco de sal? Uma praia? Um refúgio? Um conselho? Um café? Um dia?
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