20060730

Solitudine

Sonhei que caía um dente meu.
Acordei porque você se ajeitava, docemente, no meu peito, fazendo aquela boca que você faz quando pensa. Era sonho.
Sonhei que conversava entusiasmado com uma amiga que não vejo há anos. Ela me dizia que a vida dela tinha se tornado um romance do Dostoievski, adaptado pelo Kurosawa. Eu a chamei de metida. Ela me chamou de metido porque eu entendi a referência. Eu disse que ela estava copiando a minha vida.
Sonhei com Paris de novo, com aquela pracinha na île de la Cité. Um frio parecido, de tão úmido, uma paz já tão longínqua.
Acordei tarde, quase uma da tarde.
Escolhi um domingo de não-viver. Andei por aí no frio.
Em geral, eu não me lembro dos meus sonhos.

20060729

Tic-taqueando

Sentado aqui, quieto, disfarçado e de luzes apagadas, esperando essa paixão morrer.
Em pé, aqui, tocando clarinete, sem partitura e sem saber se morre meu pai, ou se sai do hospital.
Deitado aqui, pensando se vou ou não vou. Ontem não deu, o trabalho, o trabalho.
Sua voz quase me apaziguou. Sua mensagem quase me fez desandar. Ieri.
Minha resposta quase me fez chorar. Hier.
You lick one apple a week to survive
And you still have to ask
If you're alive.

É, estou escondido aqui. Super-secreto. Eu cubro a cabeça com o futon porque eu ainda acho que assim ninguém me vê.
Ninguém me vê, anyway. Melhor assim. Andar por entre a gente sem fazer marola. Curtir o frio, que o frio é o que me salva. Hiver.
Ontem eu disse para você não ir embora, mas você não ouviu.
Tu es le sang et moi la veine
T'es le jamais de mon toujours
T'es mon amour, t'es mon amour

Às vezes é importante, sabe, por alguns minutos. Até eu me ligar e sair, ver pessoas, ver a vida. Às vezes doendinho, sabe? Por instantes de distração. Às vezes eu me deixo enganar, sabe, por pura diversão. Às vezes não.
Você tem sorte de eu ser curioso. Ou azar. Eu estou deixando aí para ver o que acontece quando morrer. Ou quando virar. Ou quando me matar.
E o texto fica ruim, ruim, de não valer a pena editar, reler sequer. Sequer de contar ou mandar com flores para a casa dos seus pais. Eu leio em algumas semanas e, quem sabe, apago.
Sentado aqui, agora, eu fujo, ou finjo. Porque é assim, hoje: espera de todos os lados, e para qualquer lado é espera. E é tudo que eu não quero: inconclusiva. E tudo o que eu não tenho é paciência e dinheiro. Com o resto todo eu sou pródigo.
O que você queria mesmo?

20060727

Life imitates bad art. Again.

Porque você trabalha em agência de propaganda e está com o pai há mais de três semanas na UTI.
No dia em que recebe a notícia dizendo que o médico deu uma leve desenganada na sua mãe, você também tem de se preocupar com a campanha do dia dos pais.
E se pergunta, quase sem querer, se vai ter pra quem comprar presente.
5.6 na escala Weirdshitter. A escala vai até 7.

20060724

Meteorologia

Teste, som.
Faz um calor besta em São Paulo, esse inverno meio capenga, meio de pelúcia. Dezesseis graus prometidos para a alta madrugada fazem-me apenas lembrar dos três graus das madrugadas da Lapa (Vila Romana) e meus longínquos sete anos.
Há ali uma névoa poeirenta que vejo dos cimos de quinto-andar dos altos de Cerqueira César, quase Pinheiros. Não dá para saber direito se névoa ou se poluição, mas dá para sacar que acompanha meu estado de espírito: meio besta, meio embaçado, meio capenga; e nada de lua.
Hoje foi o dia nacional de ser simpática com o Cangaro Giallo. Todas elas. Mesmo sem saber da piora do ot?-san. Acho que minhas olheiras diziam algo do tipo "I could use a smile and some nice words for free, today".
Mesmo que por IM, e sem olheiras a denunciar o estado podre de humor azedado.
Não entendo vocês.
Then again, já nem tento mais.
Mas não sou mal-agradecido. Não é sempre, e nunca é quando eu espero. Mas é sempre bom.
Faz um frio de mentira nessas semanas que passam, nessa última semana perdida, cheia de amigos ausentes e cheia de desagravos. Claro que o crente aqui entra domingo sempre achando que não dá para ter uma semana pior que a que passou, hosana na putaquepariu da troposfera maldita. E se-lhe provam o contrário.
Respira, doido, que ainda é segunda. Terça, tecnicamente.
E já são dois dias sem nicotina, que aquilo que fumei no domingo não conta.
E a julgar pela segunda, minha gente, eu já não sei mais o que pensar. Eu continuo no esquema lavando a louça, esquecendo a moça. Mas não arrisco palpite. Sequer a cor. 50% a favor, nessas horas, é praticamente nada. 2,8% contra, com esse tempo, é certeza de dar merda.
Amanhã promete 28ºC. Amanhã não tenho hora para deixar o trampo. Amanhã, tenho coisas demais a resolver e reuniões infindáveis.
O inferno é aqui.
E meteoros abundam.

Domingo

Tudo acertado, nada resolvido.
A moça que me quer longe, na mesma. Uma atitude estranha e o que parecia se resolver tranqüilamente nos fez ter o bate-boca que não tivemos em quatro anos. Piorou, pois é.
O pai, com nova parada cardíaca, volta ao mesmo estado do pós-operatório, delicado, grave, inspirando cuidados intensivos. Na mesma ou pior.
A lua se me evade, mas tá que eu seja capaz de esquecer assim. O que eu esqueço, na verdade, é que não sou vão com esses assuntos. Sou essa porcaria desse coração hipertrofiado. Na mesma, ou quase.
O trampo, os problemas, a dificuldade toda. Quase doces de tão familiares. O stress.
Quase pedindo por um pouco de tédio.
Starting over from scratch.

20060721

Beati pauperes spiritu

Começa meio que sem jeito de dizer que é assim, que não tem mais para onde fugir, que é prostrado em adoração, que teme todos os deuses inventados em eras humanas, eras de medo.

E concebe mais um.

Faz um ídolo com a dor da solidão que amarga nessa terra imensa, inóspita e árida de onde sempre tirou sustento sem arado e sem trator. A dor da solidão que lhe deu paredes que não usa, serve bem e se molda em estátua: olhos da cor do Pacífico, pequenos seios, figura de mulher.

Não sabe bem por que deusa, mas saiu assim — acha que sonhou.

Recita um mantra, elabora uma oração. Tira sons de instrumentos desenhados para o culto e forja um ritual cheio de incensos e frutas secas: oferenda. Mede sete palmos e desenha um círculo. Deixa o incenso e as frutas dentro, fica de fora.

Derrama sangue.

Escreve imenso tratado sobre a origem: dos mundos, do seu mundo, da sua arenosa porção de terra, tão longe do Pacífico, tão distante de paz de qualquer tipo. Cria dogmas e faz leis. Açoita-se à noite por não poder cumprir as leis que esboçou.

Peca.

Devisa sacerdotes; aprende o sacerdócio. Engendra punições para pecados e cria, finalmente, um inferno. Tem vontade de ser mau, quer ser tentado, sonha com a perdição. Dorme agora sem tranqüilidade, revolve na cama suas culpas e conta as horas.

Urdiu o tempo.

E o tempo, recém-medido, se torna curto entre preces e preceitos, entre estudos e interpretações do texto sagrado que já não sabe quem escrevera — com certeza algum Santo de outrora, Profeta abençoado, que ouviu dos doces lábios da Deusa o Texto e o colocou em pedra.

Descobre as Maiúsculas.

Sem tempo, deixa de caçar e de arar, deixa de comer e de dormir. Abandona sua vida por um bem maior, o da salvação eterna, a bem-aventurança prometida pelo Seu Profeta. Cai fraco, amaldiçoando-se por não poder fazer mais pela Causa.

Dá-se uma alma.

Passam-se os anos e o Demônio não lhe tenta, a Deusa não lhe dá sinal, a vida se-lhe esvai. Continua só: ele, a areia, o sol. Promete-se mais sete dias e sete noites de espera. O Milagre será ou ele o produzirá.

Dá-se conta da Fé.

Começa por comer as paredes envelhecidas, que sabem a dor curtida em sal e sol, até que consegue se erguer e ir até o mar. Banha-se e faz contas: sete dias. Volta até o ídolo, açoitado por ventos, e começa a derrubá-lo. Desfaz o círculo e carrega para o mar as pedras com os textos sagrados, enterra incensos, frutas, flores, lágrimas e suas roupas de sacerdócio.

Adormece.

Acorda com o sol, para se dar conta de que já é maio, e não tarda a semear. Pensa ouvir vozes, mas ignora o mundo. deixa aos doutos de gerações posteriores a tarefa de explicar. Não há mais o que fazer, apenas esquecer que foi inocente.

Esquece que não é a primeira vez.

20060720

Confunda-me

Psicologia reversa. Vai que funciona…

20060718

Est-ce que je suis fatigué

Très fatigué.
E quando você está assim cansado, não dorme.

20060713

Olheiras

Há um texto dentro de mim. Há um texto querendo sair de mim. É um texto grande e sujo e feio e desesperado. Há um texto surdo em mim e eu me torno esse texto a cada dia. É uma espécie de ânsia provida de garras, tentando subir pela garganta, sair pelos poros. Um alien, um monstro de bile que entumesce.
Tem um choro aqui, remoendo intestinos e artérias. Tem um choro entupindo nefrons e alvéolos, um choro que deforma tricúspedes. Um choro que não sai, emaranhado em hemáceas.
Há aqui dentro um sonho que não mirra.

O texto não deve sair. Ou sai, um pouco em cada post, em cada e-mail. O choro quase me pega no ônibus, o sono veio primeiro. O sonho…

Apertem os cintos

Sim, sabemos que não será fácil. Sim, sabemos que sem cigarro será ainda mais complicado. Sim, estamos certos. Não, não sabemos para onde vamos. Sim, já estamos a caminho. Não, não há rede de segurança. Não, isso não é um teste.

20060712

A nação nipo-italiana se compraz

A Lua (dizem os ingleses)
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma idéia se perde.

E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa
De… não sei se é desejar.

Sim, todos os meus reveses
São de estar sentir pensando…
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando.

Fernando Pessoa

Rosario Castellanos fica para outra vez.

20060711

Guess you gotta slow the mustang down…

Ou não.
Faz um favor e segura essas idéias todas que eu tenho um pneu a trocar, um charuto a fumar e uma cerveja a beber, ainda.
Eu tenho o tempo todo de quarentanni a ver se é isso mesmo ou se é ainda outra coisa. E eu nunca me fiz de difícil. Eu só tenho meu tempo esquisito, que tempo é assim: dependente de observador, como toda e qualquer dimensão conhecida ou prevista em teoria.
Tension building up. Plot thickening e todos esses estranhamentos de um moleque capaz de travestir ansiedade em humor ácido. Ácido de bateria, diferença de potencial de emoção descontrolada embaixo de pele meio-amarela, pintada, bien sûr.
Dá só um tempinho, uns segundos que já sabes: quero tudo. Principalmente aquilo que não mereço.
E não é que continuo a repensar tudo? Quando parece que as coisas estão todas assentadas, que é só questão de tempo, vira questão de brigar, correr atrás, duvidar, repensar, entender, conquistar, pilhar e estuprar virgens! Arrrr!
[coça a perna de pau e ajeita o tapa-olho]
Levantar ferros, querida. You used me up like gasoline, lembra?
=)

20060710

Kyle did it

O cara conseguiu. Genial.

20060709

Seco

Seco, sem a ajuda do acento diferencial. Seco, desidratado. Gasto, puído. Exaurido.
Levou minha fé, e minha falta de fé. E eu nem sabia que fé ainda havia. Usou meus anos, empenhou as horas que eu ainda fazia, de teimoso, de sarrista. Os olhos estão secos, também, e cansados, ardendo, pedindo choro. Ou chuva.
Ainda que eu discorresse longas páginas, cortasse e fizesse uma rabiola, ainda assim ninguém veria. Recuso-me a dizer que fui taiado. Deixo as gentes com pontos-de-interrogação na ponta do nariz. Afinal, ainda rio, desde que disfarçadamente.
Não. Tenho milhares de nãos a distribuir hoje, e são tantos que duram até o final da semana. Peço calma aí atrás, que a fila é só para quem pegou senha. Quem não pegou senha vai ter de se contentar com meias furadas e meias-verdades. Eu minto assim como bato: só quando me pedem.
Peguei tudo aquilo e guardei, estou esperando a vazante para jogar fora, ou plantar. Vai saber. Eu poderia até simpatizar com a idéia de enterrar sonhos em casarões abandonados, escombros de vontades e vidas de supermercado. É um truque milenar de tirar de onde parece que já não há mais. É uma técnica de se encontrar assoviando na rua, no frio, sorrindo porque não há mesmo do que sorrir (nem sobre o que chorar), nesse meio de caminho que, de neblina pesada, não me deixa ver fim. Então, aproveita-se a viagem, que são bonitos os canteiros de flores de tatuagens e promessas inventadas de longas noites de delírios e risos à saciedade. E tomo esses textos fictícios de romances nunca escritos para fazer toda vez uma cena de perder juízos e ganhar êxtases que ficará na memória de gerações. Lunático, talvez, mas fazendo música com corações de pele doce e delicada: porcelana de Mulher-Lua para sempre na ponta dos dedos, desde aquele dia em que fui o mundo.
Tudo para jogar ao vento essas décadas de invencionices.
Intenso, me diz você. E ela também me diz intenso. E aqueloutra.
Que seja, mas nunca fui debalde.
Seco. E por isso peço um brinde. Aos amigos ausentes, aos amores perdidos, e que cada um me dê aquilo que acredita ser meu.

20060708

Beba

Aniversário. Yay!Eu não vou dizer o que quero ganhar. Eu certamente não vou dizer que tenho muito o que comemorar. Mas não se faz festa para si: fazemo-la para os amigos. Então que venham os amigos.
E brindem.
E me prometam uma festa quando eu morrer. Com alguns de vocês tocando, claro.

So what?

finitoFoi hoje, a décima primeira sessão. A última do ano, a última dessa tatuagem que me consumiu trinta e três horas de dor intermitente e por vezes quase insuportável. Cinco meses.
O final da história da carpa e do dragão. A transformação física e sem volta: estou marcado para o resto da vida. Uns tantos quarentas anos, pelos meus cálculos. O final nada apoteótico do rito de expurgo e de reavaliação e de auto-conhecimento pela dor.
Pain's gonna make you bautiful.
No pain, no gain.
O que arde, cura.

E assim por diante.
Two down, four to go.
Deixa-me assim: meditativo e capaz tão-somente de frases prontas, compradas a prazo.
Deixa-me mais velho, mais dolorido, mais cansado, mais colorido, mais sozinho, mais tristonho, mais sensato, mais intenso, mais fugidio, mais desconfortável, mais magro, mais consciente, mais pobre, mais desiludido, mais decidido.
Mais perdido.
Vale a pena? Vale. Cada gota de sangue, cada lágrima negada, cada punho crispado. Vale o tempo, vale a dor, vale a paciência.
Eu me jogo, vês? Eu me preparo, faço planos e acabo por me jogar. Sem rede de segurança. Que seja. Il Matto. O Tolo eterno. Aprendiz full-time. Por incompetência, admito. O Mundo me espera.
Pode ir que eu vou já.

20060706

Desconfortável

You're the night, Lilah
A little girl lost in the woods
You're a folktale
The unexplainable

You're a bedtime story
The one that keeps the curtains closed
And I hope you're waiting for me
Cause I can't make it on my own
I can't make it on my own

It's too dark to see the landmarks
And I don't want your good luck charms
I hope you're waiting for me
Across your carpet of stars

You're the night, Lilah
You're everything that we can't see
Lilah
You're the possibility

You're the bedtime story
The one that keeps the curtains closed
And I hope you're waiting for me
Cause I can't make it on my own
I can't make it on my own

Unknown the unlit world of old
You're the sounds I've never heard before
Off the map where the wild things grow
Another world outside my door
Here I stand I'm all alone
Driving down the pitch black road
Lilah you're my only home
And I can't make it on my own

You're a bedtime story
The one that keeps the curtains closed
And I hope you're waiting for me
Cause I can't make it on my own
I can't make it on my own

You're the paint can falling off the wall at the door that slams at the end of the hall where the kid rings sounds of basketball. The battle of the earth, of the angels. The shifting snow drifts so realistic, so realistic — call you carpet of stars. See there is something in the yard. It's awful dark. With the painted strings, the cross, the good luck charm, the prayer, the extralayer…

20060704

Satchel mouth

All praise the king of Zulus. O cara que, sozinho, redesenhou o jazz. Louis Daniel Armstrong.
(ele inventou o jazz, if you ask me)

Ana, e são tantas Anas

Foi gentil, divertida, honesta. Trouxe-me chocolate, cigarrilha, bolhas de sabão, inteligência. Contou-me do namorado, do emprego, de vidas. Não pediu nada além de chá e da verdade. Fez mea culpa, fez do meu domingo bearable, fez-me enxergar uma ou duas coisas.
Fui chatinho, reclamão, sério demais. Dei-lhe chá, varanda, piadas, causos. Contei da paixonite, do pai, de vidas. Não pedi nada além de crueldade. Fiz mea culpa, fiz-me de rogado, fiz bolhas de sabão.
São tantas, as Anas. Mas ela é Ana.
Grazie molto.
Auguri.

20060703

Prontuário

O velho operou. O coração agüentou as duas mamárias (e não safenas). O pulmão, abusado por mais de cinqüenta anos de dois ou três maços de Minister por dia, baqueia. Desentubou, ficou na máscara, deve entubar hoje novamente.
Os rins, abusados por quase trinta anos de diabetes irresponsavelmente ignorada, deram o prego e o velho tá inchando.
A resistência caiu, a pneumonia fez casa.
A dor fez o cara despirocar e está na base do sedativo.
Alta é uma coisa que elude.
Eu não sei se quero mais notícias. Mas, enfim, tão poucos os meus quereres atendidos ultimamente que acho que vou ganhar na loteria.

20060702

Tudo o que você não queria saber do meu sábado

Carro de som anuncia o circo, ruidoso no barulhento Largo do Limão. Não o vejo, preso ao Whitman. Vejo a minha infância. Quando criança, era criança. Quantas resmas de lembranças cabem num momento de distração?

Pão, manteiga, café e leite. O croque monsieur da Casa da Gula amodesta-se em "bolo de queijo e presunto", nome mais adequado à minha despretensão de não-nascido (vida em gestação) que o galicismo possível e decerto sofrível. Periferia de solicitudes e pequenos cuidados, de senhorinhas que a deus tudo imputam: a graça e a desgraça, mormente.

Respiro moroso em frente à grande vidraça que passa a vida do Limão em cinemascope (e quase-perfeito 3D). Jogo minutos aos pombos imundos e gordos enquanto espero as agulhas. A mulata bonita lança um sorriso e acaba o suco. Sorrio de volta e torno ao livro, à relva, à fuga. Quero estar longe, mas ouço Limão. Não há destinação: é um eterno interregno, um caminho, de fato. Você não verá o fim: você nunca saberá o final da sua história, só os outros. Alguém para contar a história. É imperioso ter alguém para contar.

O tempo parou uma vez, no Cartaxo. Cama de féretro, escuro, escuro, véspera de figos frescos e sotaque dos Açores. O tempo parou certa feita, no Cartaxo, no átimo de acordar e me ver morto e sepultado; e em paz. O breve segundo de morte em que o único sentido era a consciência de não ter a faculdade dos sentidos, mas ser. Um existir puro, iluminação by chance, pela compreensão do não-ser; iluminação efêmera. Guardada por seis anos. Revisitada no Limão.

Limão, Lapa, Cartaxo, Vila Mariana, Cidade Monções, Paraíso, Osasco, Brooklin, Parque Continental, Village, Rive Gauche, Ramblas, Amoreiras, Perdizes, Montjuic, Bologna, Inferno.

Via Largo da Batata.

Hierofante

No meu sonho, os pensamentos vinham e tupperwares coloridos, embalados, um a um, em magipack.Tínhamos, os dois, que desembalar essas idéias para apreendê-las.
Uma delas perguntava se os dentes dormem quando a gente dorme. E se os dentes sonham sonhos de dentes.
Outra delas dizia assim: depois que você vai embora, eu fico um pouco triste. Depois que você vai embora, a vida continua. Depois que você vai embora, meu espaço não existe para você, mas seu cheiro fica em mim.
Mas você, que estava animada com nossas idéias, teve de ir embora, por algum motivo. E foi, me olhando com olhos de confusão. E eu acordei sentindo seu cheiro.

À gusia de diário

Não era o dia de sessão de tattoo. Sábado que vem. Dia 8.
Perdi também o handebol. Ia hoje, mas amanheceu chovendo. O país amanheceu de ressaca.
Não fui visitar meu pai. Vou hoje, espero.
Minha mãe e minhas irmãs estão bem, melhor que eu, talvez. Esqueço que mulheres são muito mais fortes que homens. Mas elas fazem questão de me lembrar.
Encontrei, na rua, minha primeira namorada. Conversamos por uma horinha. Ela ainda tem o mesmo cheiro, os mesmos trejeitos e o mesmo lust for life.
Esqueci o bilhete único, esqueci o celular carregando. Perdi a chance de ver gente que gosto, no dia que precisava. Adiamentos.
The No-Musicians Jazz Band está disponível na Last.fm.
A preparação para a tal da vida nova começou: minha cabeça não para, mesmo que eu faça força. Pensar tanto assim deve fazer mal.
O podcast também não vai rolar, ainda.
Adia tudo. Adia para o doze de julho. Que não significa nada, mas é sempre bom ter uns marcos assim, para a gente se decepcionar…