Começa meio que sem jeito de dizer que é assim, que não tem mais para onde fugir, que é prostrado em adoração, que teme todos os deuses inventados em eras humanas, eras de medo.
E concebe mais um.
Faz um ídolo com a dor da solidão que amarga nessa terra imensa, inóspita e árida de onde sempre tirou sustento sem arado e sem trator. A dor da solidão que lhe deu paredes que não usa, serve bem e se molda em estátua: olhos da cor do Pacífico, pequenos seios, figura de mulher.
Não sabe bem por que deusa, mas saiu assim — acha que sonhou.
Recita um mantra, elabora uma oração. Tira sons de instrumentos desenhados para o culto e forja um ritual cheio de incensos e frutas secas: oferenda. Mede sete palmos e desenha um círculo. Deixa o incenso e as frutas dentro, fica de fora.
Derrama sangue.
Escreve imenso tratado sobre a origem: dos mundos, do seu mundo, da sua arenosa porção de terra, tão longe do Pacífico, tão distante de paz de qualquer tipo. Cria dogmas e faz leis. Açoita-se à noite por não poder cumprir as leis que esboçou.
Peca.
Devisa sacerdotes; aprende o sacerdócio. Engendra punições para pecados e cria, finalmente, um inferno. Tem vontade de ser mau, quer ser tentado, sonha com a perdição. Dorme agora sem tranqüilidade, revolve na cama suas culpas e conta as horas.
Urdiu o tempo.
E o tempo, recém-medido, se torna curto entre preces e preceitos, entre estudos e interpretações do texto sagrado que já não sabe quem escrevera — com certeza algum Santo de outrora, Profeta abençoado, que ouviu dos doces lábios da Deusa o Texto e o colocou em pedra.
Descobre as Maiúsculas.
Sem tempo, deixa de caçar e de arar, deixa de comer e de dormir. Abandona sua vida por um bem maior, o da salvação eterna, a bem-aventurança prometida pelo Seu Profeta. Cai fraco, amaldiçoando-se por não poder fazer mais pela Causa.
Dá-se uma alma.
Passam-se os anos e o Demônio não lhe tenta, a Deusa não lhe dá sinal, a vida se-lhe esvai. Continua só: ele, a areia, o sol. Promete-se mais sete dias e sete noites de espera. O Milagre será ou ele o produzirá.
Dá-se conta da Fé.
Começa por comer as paredes envelhecidas, que sabem a dor curtida em sal e sol, até que consegue se erguer e ir até o mar. Banha-se e faz contas: sete dias. Volta até o ídolo, açoitado por ventos, e começa a derrubá-lo. Desfaz o círculo e carrega para o mar as pedras com os textos sagrados, enterra incensos, frutas, flores, lágrimas e suas roupas de sacerdócio.
Adormece.
Acorda com o sol, para se dar conta de que já é maio, e não tarda a semear. Pensa ouvir vozes, mas ignora o mundo. deixa aos doutos de gerações posteriores a tarefa de explicar. Não há mais o que fazer, apenas esquecer que foi inocente.
Esquece que não é a primeira vez.