Perdi o sono, perdi o ponto, perdi o ritmo e o rebolado. Achei que os havia perdidos.
Tentei trocar por um clipe vermelho mas meu fornecedor, o Thundercat Games, só tem mesmo essas coisas que se vendem na Vila Olímpia: juízo, senso, hora-extra.
Quando acordei do que jurava ser sono (era febre, claro, e terçã), dei-me conta que a coisa toda foi um ataque rápido, coisa de profissional: levou, num átimo, minha vontade, minha resilência e o roteiro dos meus próximos três anos e três meses.
Roubou todos os textos bons que eu escrevera, escrevi, escreveria, escrevo, escreverei. Deixou os posts de blogs, e-mails de trabalho, scraps de profiles.
O ciúmes, foi. O barril com água doce, foi. O tapa-olho, deixou. A
finesse no quatro ouros, passei.
Tungou meu coração (ah, falei).
Desolado e enternecido, refuguei o Perus-Lapa, deixei escapar o Jaçanã, rindo-me, e fui a pé. Paripasso.
Comprei um guarda-chuva, dancei com Cronópios e ganhei uma campainha que faz
blim-blom. Mas não
qualquer blim-blom.
Descobri no folhetim que o segredo da imortalidade é fazer uma pilha de livros, à guisa de criado-mudo, embora
taquilálico, ao lado da cama, com os volumes que não posso morrer sem tê-los lido a todos.
Quase botei fogo na casa.
Descobri que desaprendi a acabar textos, mas que não deve ser mais difícil do que dar o truque no saxofone. E é mais ou menos assim:
Se você me vir, às duas da tarde de sábado, tendo certezas, atire para matar. Não sou eu, é meu
evil twin.